sexta-feira, 15 de julho de 2016

Bad Religion 11 - The Gray Race (1996)

Nota 8,5

"Eu entrei num modo de proteção! Ainda tinha a banda e queria manter ela viável. Dei o melhor de mim pra manter tudo nos trilhos, mas deu um puta trampo! Foi como estar em uma corrida sem ter todos os cilindros do carro funcionando.” Esta afirmação de Greg Graffin ao entrevistador Nic Harcourt, no programa Guitar Center Sessions, descreve exatamente a atitude “faca nos dentes” que o vocalista adotou para compor o 9º disco de estúdio do Bad Religion, o aclamado “The Gray Race”, de 1996.

Seu principal (e único) parceiro de composição banda, o guitarrista Brett Gurewitz, havia saído de maneira conturbada logo após a gravação do disco anterior, “Stranger Than Fiction”, em 1994, e o cantor se viu sozinho com toda a responsabilidade de “tocar o barco”, com todo o direcionamento musical da banda em suas mãos. “Antes eu compunha apenas metade das músicas de nossos discos e agora tinha que fazer tudo”, explicou. “Acabei fazendo quatro discos assim, dos quais me orgulho muito de pelo menos dois deles.” E “The Gray Race” certamente foi um deles!

Capa da coletânea"All Ages"
Um ano antes, em 1995, por questões contratuais, saiu a coletânea “All Ages”. Foi como uma “despedida amarga” da antiga gravadora da banda, a Epitaph, de propriedade do agora “desafeto” e ex-guitarrista Brett. Com 22 sons, “All Ages” cobre toda “fase-Epitaph” do Bad Religion, com músicas desde “How Could Hell Be Any Worse” (1982) até “Generator” (1992), e mais duas ao vivo gravadas na Suécia, já com o novo guitarrista Brian Baker (ex-Dag Nasty e Minor Threat) no lugar de Gurewitz. “Não houve problemas em trabalhar nessa coletânea e até participamos da produção”, minimizou Graffin.

Foi também em 1995, durante a turnê do disco anterior, que o vocalista compôs todo o material que estaria posteriormente em “The Gray Race”, sendo que ele tinha juntado, supostamente, 23 músicas (!!!) antes de entrar em estúdio, até lapidar as 15 que entraram no álbum. Ele trabalhou em seu home-studio em Ithaca (NY) em algumas demos e chamou o novo guitarrista Brain Baker e o batera Bobby Schayer para complementar o trabalho. “Isso fez uma puta diferença na qualidade do material”, revelou. “Sem Brett, me senti mais livre para explorar alguns elementos novos nas músicas.” O novo guitarrista também estava inspirado e colaborou com cerca de 40% da parte musical do disco (apesar de ter ganhado créditos em apenas quatro canções das 15 finais), que acabou sendo uma evolução natural do som da banda.

Baker, Hetson, Graffin, Schayer e Bentley no encarte do CD
“Esse álbum talvez tenha um pouco mais de emoção. Ele fala sobre a luta do homem numa sociedade que vive em uma corrida sem fim, intolerante e individualizada”, acrescentou o compositor. De fato, as letras do Bad Religion nunca foram tão politizadas e contestadoras como nesse disco, que abordou temas como a falta de compaixão na humanidade, superpopulação mundial e inconformismo com o sistema.

Gravado entre outubro e novembro de 1995, no Electric Lady Studios (montado por Jimi Hendrix), em Nova York, e lançado dia 27 de fevereiro de 1996 pela gravadora Atlantic Records, The Gray Race” conta com 15 faixas divididas em pouco mais de 38 minutos. A produção ficou a cargo de Ric Ocasek, ex-frontman do The Cars, e também produtor de bandas como Hole, No Doubt, Bad Brains e Weezer. “O timbres que usamos eram diferentes, assim como nossa abordagem na gravação. Tudo por influência do Ric. Foi muito rejuvenescedor, artisticamente falando”, contou Greg Graffin sobre a experiência.

K7 de The Gray Race
Também foi a primeira vez desde “How Could Hell be Any Worse” que a banda gravou as músicas com todos tocando juntos no estúdio. Para o guitarrista Greg Hetson, isso acabou deixando disco mais “na cara”. Já para o batera Bobby, gravar assim “foi mais desafiador”. As principais mudanças no som foram nas guitarras, que ficaram mais comprimidas e pesadas que nos discos anteriores, e no som da bateria, bem mais claro e definido. “Ficou mais pesado, melhor e mais cheio que o Stranger Than Fiction”, pontuou Greg. “Ficou bom pra tocar no rádio e bem mais audível, pois os graves ficaram bem definidos e os agudos mais cristalinos.”

Novamente, mesmo com toda a inspiração musical do Bad Religion, a arte da capa deixou a desejar ao contar apenas com fotos em preto e branco de rostos de alguns funcionários da Atlantic Records escolhidos aleatoriamente, remetendo ao título “A Raça Cinza”, numa tradução livre. Apesar da ideia interessante para fazer alusão o título do play, não havia nenhuma informação escrita, como o nome ou o logo da banda, ou mesmo o nome das músicas na contracapa; isso não chamou muito a atenção dos fãs que buscaram o CD nas lojas de discos. A ideia original era um desenho de um menino e homem em plena avenida Times Square, em Nova York, ao lado de um cervo que acabara de ser morto, mas essa arte acabou servido posteriormente como capa do single de “Punk Rock Song” (veja abaixo).
Bad Religion posando no Electric Lady Studios
Mesmo não fazendo o mesmo sucesso que o disco anterior, “The Gray Race” chegou à posição 56 nos charts da “Billboard 200”, graças ao videoclipe do single “A Walk” e a um comercial veiculado na MTV (?!?!) à época. No total, “TGR” vendeu cerca de 140 mil cópias nos Estados Unidos em seu ano do lançamento, chegou ao número 6 das paradas na Alemanha e ganhou um disco de ouro na Finlândia. Ainda para impulsionar o lançamento no continente europeu, principal mercado da banda, a gravadora Atlantic também elaborou o um EP especial, somente para o Reino Unido, com apenas as quatro músicas que se tornaram os singles do disco, “A Walk”, “Punk Rock Song”, “Streets of America” e a "Ten in 2010".

Assista ao vídeo de “A Walk”:

E paremos de lenga-lenga e vamos logo ao que interessa: as músicas! ;)

BR na revista brasileira Rock Brigade
Com um Sol menor (Gm) ressoando forte, o Bad Religion se manteve fiel à tradição de (quase) sempre começar um disco pela faixa-título, abrindo seu 9º disco com um hardcore melódico certeiro e direto. “The Gray Race”, a música, tem um riff simples e pegajoso (provavelmente composto por Brian Baker), que serve de base para toda a linha melódica da canção. Apesar de empolgante, o excesso de palavras no refrão (característica bem comum nas letras de Graffin) deixou a música difícil de ser cantada, tirando um pouco de seu brilho.

Mas é justamente esse “excesso de letras” que fez a canção ser escolhida como a faixa-título do álbum, já que a força por trás das palavras traz uma sensibilidade poucas vezes vista em uma banda Punk, como o próprio cantor explica: “Nós enxergamos o mundo ‘preto-no-branco’, ainda que tenhamos a capacidade de ver os tons de cinza no meio. Mas essa capacidade às vezes acaba atrapalhando. Ela atrapalha o nosso progresso, mas é justamente isso que nos faz mais humanos, mais sensíveis. Como nosso mundo não foi feito na base da compaixão, acho que é justamente isso o nosso maior dilema enquanto humanos.” Profundo, não? (rs)

Entrevista na Rock Brigade
Um riff cortante com guitarras dobradas inicia a faixa 2, “Them And Us”, outro hardcore melódico com refrão cheio de palavras que versa sobre a estereotipação das pessoas. Bastante tocada nos shows, o maior destaque do som é o coro do refrão, cheio dos já famosos e costumeiros “oozin’ ahs”, perfeito pra cantar junto quando você não sabe a letra.

Na posição 3 está o primeiro single e maior sucesso do álbum “A Walk”. Bastante tocada nas rádios de rock do Brasil no fim dos anos 90, a música é bem comercial e acessível, com poucos e certeiros acordes abertos, seguindo à risca a cartilha do Punk Rock. A letra, sobre inconformismo com o sistema, mostra uma maneira “elegante” de um professor universitário se revoltar: “E quem diabos é você pra me dizer o que fazer, você mal consegue amarrar seus sapatos!”, canta Greg Graffin antes de “sair por aí para caminhar e trilhar seu próprio caminho sozinho”.

Capa do single "A Walk"
Parallel” vem em seguida trazendo uma slide-guitar (tocada por Graffin) na lenta introdução, até cair num interessante hardcore melódico com uma letra sobre como nos achamos prepotentes o bastante para “dar pitaco” na vida dos outros, quando na verdade vivemos o mesmo tipo de vida da pessoa que estamos tentando ajudar. O refrão, apesar de ter muitas palavras novamente, tem um pegajoso backing vocal perfeito para cantar junto (“our lives are parallel”), porém a banda tocou pouquíssimas vezes a música ao vivo.

E se “A Walk” é o maior hit do disco, “Punk Rock Song” é o hino! Tocada em praticamente todos os shows desde então, a música, como o próprio nome entrega, é um punk rock mid-tempo ao melhor estilo do Bad Religion, com uma letra esperta super contestadora e um refrão pegajoso como chiclete. “Existe tanta miséria e tragédia no mundo que nós conseguimos identificar, mas não podemos consertar. Ao menos podemos oferecer uma música Punk, já que as pessoas são mais interessadas em comentar os problemas do que ir atrás de resolvê-los”, explicou Greg sobre a letra.

Encarte do single "Punk Rock Song" (clique para ampliar)
No fim da música, pode-se ouvir ao fundo o guitarrista Brain Baker gritando empolgado com o baterista, “Yes, Bobby Schayer, that’s the one!”. Também lançada como single, “Punk Rock Song” ganhou um simples videoclipe, onde a banda toca em uma pequena sala com uma gigante janela redonda ao fundo onde passam algumas imagens sem sentido. A música também ganhou uma versão em alemão que aparece em algumas edições especiais do CD.

Assista ao vídeo de “Punk Rock Song”:

Cartaz de show de 96, na Califórnia
Após esse começo forte de disco, com faixa-título e dois singles de sucesso, chegou a hora de alguns fillers que tiraram um pouco do brilho da obra. “Empty Causes” vem na faixa 6 e traz uma letra sobre pessoas superficialmente revolucionárias, que se dizem engajadas, mas que no fundo estão mais chapadas de “purple haze” (um tipo de maconha comum nos anos 60) e não têm nenhum conteúdo em seus protestos. Em seguida, a curta “Nobody Listens”, co-composta por Brian Baker, fala sobre como as pessoas não escutam mais ninguém no mundo moderno. “Ouvir não é mais necessário no mundo de hoje, onde as pessoas agem apenas por seus impulsos. Infelizmente, para pensar é preciso ouvir antes”, filosofou Graffin sobre a música.

“Olhe para os vivos e se pergunte por que temos pena dos mortos?” é o refrão de “Pity The Dead”, a faixa 8 do play, que tem uma letra que filosofa sobre o uma possível eterna paz do “outro lado”. Bastante tocada na turnê do disco, a música é um Punk Rock bem marcado perfeito para pogar.

Capa do single de "Streets of America"

Logo depois vem “Spirit Shine”, outro Punk Rock midtempo de coautoria de Brian Baker, com um interessante arranjo de guitarra e uma letra sobre como os conformados do sistema querem convencer todos a abraçar sua mediocridade com tanta convicção, que parecem “brilhar”! A música nunca havia sido tocada ao vivo até recentemente, e serviu para abrir os shows da última tour da banda no Brasil, em 2014.

Entrando na reta final do play, chega a vez do singleThe Streets of America”, uma baladinha pouco inspirada da banda, que acabou ganhando um mediano videoclipe que lembrou uma versão desértica do vídeo de “Struck a Nerve”. Dirigido por David Bragger, que também já havia comandado os vídeos de “Punk Rock Song” e “A Walk”, e filmado no deserto de Mojave, na Califórnia, a gravação do vídeo foi uma das piores experiências que a banda já teve, segundo Brian Baker, que também foi coautor da faixa. Mesmo assim, o vídeo acabou “anexado” ao CD do single, naquela época em que ainda existia CD-ROM.

Assista ao vídeo de “The Streets of America”:

Para espantar o sono provocado pela baladinha, a feroz hardcore “Ten in 2010” vem logo em seguida, com sua letra sobre o crescimento da população mundial, já que, segundo as projeções de Greg Graffin, em 2010 o mundo estaria com 10 bilhões de habitantes. Ele errou por pouco, mas pelo menos a banda acertou a mão na música, que também saiu como single e ganhou um clipe (dirigido por Francis Lawrence), mas que não teve muita veiculação, já que nem mesmo a banda apareceu nele.

Assista ao vídeo de “Ten in 2010”:

Na faixa 12 temos mais um filler bem xoxo, “Victory”, cuja a letra, segundo Greg Graffin, fala da “vitória do instinto sobre o intelecto humano”, daí a razão para tantas atrocidades no planeta. Em seguida vem “Drunk Sincerity”, um Punk Rock “simprão”, parecido com uma música irlandesa de bebedeira tocada rápido. A música também foi bastante tocada na tour do disco e tem uma letra bem poética sobre como caímos em “papo de bêbado”.

Letras no encarte do vinil (clique p/ ampliar)
Quase no final, temos o outro hino do disco, “Come Join Us”, que certamente deveria ter sido single (eita gravadora ruim de escolha!), mas ficou apenas restrita aos shows. A letra traz ironia no mote convidativo “junte-se a nós”, muito utilizado pelas igrejas pentecostais americanas para angariar fiéis, mas convida o ouvinte a se rebelar contra o sistema junto com a banda!

E para fechar com chave de ouro (seja lá qual for o simbolismo disso... rs), temos a belíssima e subestimada “Cease”. A letra traz uma bela poesia livre e a música acabou também aparecendo no primeiro disco solo de Greg Graffin, “American Lesion”, de 1997, numa maravilhosa versão de piano. O sucesso dessa versão foi tanto, que no primeiro DVD do Bad Religion, (Live at The Palladium, de 2004), Greg acabou repetindo a "dose pianística” tocando a faixa sentado no banquinho, emocionando os fãs presentes!

The Gray Race” dividiu opiniões, mas manteve o Bad Religion no topo, mesmo sem seu outro principal compositor, Mr. Brett, que na época afirmou que achou disco “pouco inspirado”. Outro feito do CD foi emplacar as músicas “Them and Us” e “Ten in 2010” na trilha sonora do game Crazy Taxi.

BR em seu 1º show no Rio de Janeiro
A “The Gray Race Tour” durou de fevereiro de 96 até fevereiro de 97, com 114 shows em 7 pernas, e trouxe a banda pela primeira vez ao Brasil, com shows em São Paulo (29/11/96), Rio (30/11/96) e Curitiba (01/12/96), no extinto festival Close-Up Planet, que também contou com Sex Pistols, Marky Ramone & The Intruders, Silverchair e Cypress Hill no line-up.

Capa do ao vivo "Tested"
"Apesar da receptividade da platéia, me decepcionei muito com aquele show, sobretudo com a atitude arrogante dos Sex Pistols. Eles nem sequer dirigiram a palavra aos outros grupos que dividiriam o mesmo palco e, o pior, desrespeitaram o público”, lembrou Greg Graffin posteriormente, em entrevista ao Estadão.

Tantos shows e tanta exposição também renderam o primeiro disco ao vivo da banda, “Tested”, lançado em 1997, com 24 músicas ao vivo, gravadas direto da mesa de som em diversos shows da tour e sem nenhum overdub. O disco ainda trouxe mais três (ótimas) músicas inéditas: “Dream of Unity” (que ganhou um clipe), “It's Reciprocal” e “Tested”, todas gravadas no home-studio de Greg Graffin.

Assista ao clipe de “Dream of Unity”:

Voltando ao disco “The Gray Race”, como de costume, no YouTube podemos encontrar versões demo e versões não-mixadas de seis músicas, as quais você pode conferir logo abaixo:

Escute o disco “The Gray Race”:


sábado, 1 de agosto de 2015

Bad Religion 10 - Stranger Than Fiction (1994)


Nota 9,5
Crise interna. Sucesso de “Recipe For Hate”. Entrada no mainstream. Contrato com gravadora major (Atlantic Records). Brett Gurewitz afundado no crack. Sua gravadora Epitaph ganhando milhões com o sucesso do Offspring. Punk Rock no topo das paradas e da MTV. 1994 - essa é a uma sucinta descrição do cenário que envolveu a concepção e o lançamento de “Stranger Than Fiction”, 8º disco do Bad Religion, tido por muitos como o melhor da carreira da banda.

Após finalmente romper a barreira do underground e atingir pela primeira vez as paradas, o Bad Religion estava entre a cruz e a espada: o racha fortíssimo entre os principais compositores e “cabeças” da banda, o vocalista Greg Graffin e o guitarrista Brett Gurewitz, principalmente por conta da traumática saída do grupo da gravadora Epitaph (leia mais sobre isso no post anterior), estava ainda maior e as discussões acerca do disco novo começaram já na escolha do repertório, com Brett exigindo que a banda regravasse o hit “21st Century (Digital Boy)”, lançada no disco “Against The Grain”, em 1990.

Cara de poucos amigos  na sessão de fotos de STF
“Nós brigamos muito”, admitiu mais tarde, em entrevistas, o baixista Jay Bentley. “Nós quatro queríamos que ‘News From the Front’ entrasse no tracklist oficial do disco, mas Brett insistiu que fosse a ‘Digital Boy’ novamente.” Como o guitarrista era o compositor das duas canções, a solução foi lançar duas versões de “Stranger Than Ficton”, sendo que “Digital Boy” permaneceu no tracklist oficial da versão americana do disco e a “News...” entrou como bônus (junto com “Markovian Process”) na versão lançada no resto do mundo.

E se os ânimos estavam acirrados no “social”, no setor criativo, o Bad Religion estava “voando baixo”, literalmente dando aula de como fazer Punk Rock melódico e contestador, com letras inteligentes. Diferentemente do direcionamento mais alternativo e experimental que adotaram em “Recipe for Hate”, “Stranger Than Fiction” ficou marcado como um raríssimo caso de “se vender ao contrário”, pois a banda, que pela 1ª vez estava em gravadora major multinacional, figurando no mainstream, com distribuição mundial e acesso às rádios e MTV, musicalmente fez um dos discos mais Punk de sua carreira! A própria gravadora Atlantic não ficou muito feliz com o resultado “não-tão-comercial” das músicas apresentadas pela banda e mostrou não saber trabalhar muito bem com um artista “musicalmente livre”.

Capa do single 'Digital Boy'
A principal “mancada” dada pela gravadora foi a escolha errada dos singles. Enquanto a principal rádio de rock de Los Angeles na época, a KROQ, percebeu o enorme apelo comercial da semi-balada “Infected” e começou a rolar a música por conta própria na programação, “sem incentivo” (ou jabá) da Atlantic, a gravadora absurdamente preferiu lançar “21st Century (Digital Boy)” como single do disco, fazendo com que o disco, embora ainda com boas vendagens, chegasse apenas ao número 87 do Top 200 da Billboard, na época do lançamento, e a disco de ouro (500 mil cópias vendidas nos EUA) somente quatro anos depois, em 1998.

Assim, após 5 semanas de gravação, entre abril e maio de 94, no estúdio Rumbo Recorders, em Los Angeles, sendo um disco bem punk” e “pouco comercial”, e lançado por uma gravadora major de alcance mundial, “Stranger Than Ficton” veio à luz no dia 6 de setembro de 1994, bem no meio do turbilhão que o Punk Rock Californiano havia entrado meses antes, com o sucesso mundial de Green Day e Offspring, e seus magistrais “Dookie” e “Smash”, respectivamente. De fato, mesmo com as “mancadas”, “STF” fez justiça ao Bad Religion e colocou a banda em seu devido lugar junto aos “picas do rolê” da época, fazendo-os serem reconhecidos como os “pais/criadores” do estilo que agora estava no topo.

O "hype" na revista RIP, já sem Brett
De bolsos cheios devido ao contrato com a Atlantic, o Bad Religion chamou o renomado Andy Wallace para produzir “STF”. O produtor, que já havia trabalhado com Slayer, Sepultura e Aerosmith, além de ter mixado o clássico “Nevermind”, do Nirvana, fez um bom trabalho ao deixar o som de “STF” incrivelmente audível, com uma nitidez espantosa e os instrumentos “na cara”. O único porém foi que, como em qualquer disco muito produzido, as guitarras acabaram diluídas pelo peso estrondoso do baixo, soando limpas e pouco distorcidas. Esse é o único motivo do disco receber, de mim, a nota 9,5 e não 10...

Ao todo, 19 faixas foram gravadas para “STF”, sendo que 15 entraram no lançamento americano (totalizando 38 minutos), 17 no lançamento mundial (com cerca de 42 minutos, como a versão brasileira), 18 no lançamento japonês, sobrando um único som usado como “lado B” de single (“Mediocrity”). A divisão na composição foi novamente equilibrada, com Greg compondo 10 músicas e Brett as outras 9. Jay Bentley e o baterista Bobby Schayer também levaram créditos de co-autores (junto com Brett) em “News From the Front”, fazendo com que, novamente, o BR tivesse outro disco sem contribuições do guitarrista Greg Hetson.

Mr. Brett orgulhoso de sua criação
E foi justamente no “departamento guitarrístico” que o Bad Religion acabou sofrendo a maior baixa por conta das tretas durante o período que antecedeu o lançamento de Stranger Than Fiction. Apesar de ter se afundado novamente no vício do crack, Brett Gurewitz agora era um bem sucedido empresário milionário com sua gravadora Epitaph, graças às estratosféricas vendas de “Smash”, do Offspring, que em 94 atingiu a casa de 5 milhões de cópias vendidas. Da noite para o dia, em pleno período de produção do disco de sua banda (e pela primeira vez sem o seu controle da mesa de som), ele estava tendo que se virar para conseguir estruturar a sua “gravadora independente” para conseguir atender à demanda milionária do disco do Offspring.

Apesar de se garantir no business, mandando bem com a enorme demanda do Offpring e aproveitando o embalo para fazer várias outras bandas de seu selo despontar para o sucesso (como Rancid, NOFX, Pennywise...), Brett acabou espanando no lado do Bad Religion, com rusgas fortíssimas com Greg Graffin e, principalmente, com Jay Bentley, de quem também era “patrão” na Epitaph (já que o baixista foi por anos um dos poucos funcionários da gravadora), saindo da banda que fundou antes mesmo do início da tour, duas semanas antes do lançamento de “Stranger Than Fiction”, considerado por ele mesmo, seu melhor trabalho no Bad Religion.

Seu substituto foi Brian Baker, famoso na cena Hardcore de Washington por ter tocado no MinorThreat e no Dag Nasty. Ele estreou no Bad Religion substituindo Brett no dia 20 de agosto de 1994, no Bizarre Festival, na Alemanha, (também) antes do lançamento de “STF”.

Encarte completo de STF (clique para ampliar)
Voltando ao disco, nem mesmo a capa escapou ilesa das tretas entre os integrantes. Por não concordarem com nenhuma arte, a capa daquele que acabou sendo considerado o melhor disco do Bad Religion foi simplesmente uma foto dos integrantes em preto e branco, com as caras mais amarradas possíveis, diga-se de passagem. No encarte, aproveitando a veia de cientista de Graffin, foram colocadas fotos da revista Popular Science.

E chega de história. Vamos para a Música! :)
Uma das capas do single de STF
Como disse antes, “Stranger Than Fiction” é uma aula de Punk Rock melódico, com o Bad Religion no pico de seu ápice criativo e sem a mínima intenção de amaciar o som para figurar nas paradas de sucesso. “Incomplete” resume bem esse espírito, abrindo o play com um chute no peito, onde um feroz Greg Graffin grita uma rebelde letra com raiva jamais vista e guitarras que, apesar de mais limpas, rasgam os falantes como nunca! Wayne Kramer, do MC5, tocou o barulhento solo de guitarra nesta faixa, composta por Brett e que também ganhou um clipe como 4º single do disco.

Assista o clipe de “Incomplete”:

A segunda música é outro chute no peito, na forma de “Leave Mine to Me”, um Punk Rock certeiro e bem amarrado de Greg Graffin, com um letra que aponta muitos dedos na (sua) cara! Já na faixa-título, que vem em seguida, Brett admitiu que tentou soar como Elvis Costello como pano de fundo para uma letra sobre escritores tidos como pessimistas, como, por exemplo, Jack Kerouac. “STF”, a faixa, acabou sendo o 2º single do álbum, e ganhou um clipe dirigido novamente por Gore Verbinski, que já havia trabalhado no vídeo de “American Jesus”, do disco anterior.

Assista o clipe de “Stranger Than Fiction”:

Na faixa 4 temos a reta e direta “Tiny Voices”, de Graffin, com uma letra inspirada nas pessoas mortas nos conflitos da Bósnia, que aconteceu na época.

Mais uma capa do single STF
Em seguida é a vez da melhor do disco, a punker empolgante “The Handshake”, que inexplicavelmente não se tornou single! Sua levada tradicional de Punk Rock, nas bases daquela desenvolvida e imortalizada por Tommy Ramone, dá a tônica da música, que te convida a pogar, paradoxalmente, junto a uma letra bem pessimista sobre relações pessoais. Canção típica de Greg Graffin.

Better Off Dead” segue na faixa 6, e pode ser tida como uma “música-modelo” do que entende-se por “Hardcore Melódico”! Harmonicamente bem estruturada, sua letra, composta por Brett, fala sobre “o peso de carregar o mundo nas costas”, possivelmente inspirada no caos pessoal que o guitarrista estava vivendo na época.

E a 7ª faixa é aquela que faz valer você ter comprado o play! “Infected”, a semi-balada do Bad Religion sobre uma doentia relação de amor e ódio de um casal, tocou muito nas rádios rock e seu clipe (com um tosco roteiro imposto pela gravadora que não agradou à banda) rachou de passar nas MTVs!

Assista o clipe de “Infected”:

Composta por Brett, a música começa de mansinho e cresce numa levada, que pode ser curtida tanto “numa boa” quanto “pulando”, até atingir o ápice no pegajoso refrão “You and me have a disease...”. Foi nesse som que a Atlantic cometeu seu maior erro na estratégia de divulgação do disco, escolhendo-o para single somente depois de tentar (e falhar) com “Digital Boy” e “STF”. O sucesso foi tanto que a gravadora acabou lançando 4 versões diferentes do single, incluindo uma com um EP ao vivo bem interessante.

Cenas do BR ao vivo na STF Tour 94-95
O 8º som, “Television”, ganha mais destaque pela participação de Tim Armstrong, do então emergente Rancid, dividindo os vocais com Graffin, do que pela música em si. Composta por Brett em parceria com Johnette Napolitano, do Concrete Blonde (ela já havia gravado backing vocals com o BR no disco anterior, em “Struck a Nerve”), a letra divaga sobre como a TV é a religião do mundo moderno, sendo que a palavra “television” é repetida várias vezes seguidas, como um coro de “Aleluia”.

Em seguida, um ahh forget it introduz “Individual”, que é mais um dos Punk Rocks rápidos e diretos de Greg Graffin. “Horray For Me...” vem na 10ª posição do tracklist, e é mais um desabafo de Brett sobre viver a vida no máximo, com todos os encargos que isso te traz. O outro guitarrista do BR, Greg Hetson, foi contra a inclusão da música por causa da letra, mas ela acabou entrando porque os demais gostavam da música em si.

Na faixa 11 há a simpática “Slumber”, uma canção de ninar que Greg Graffin fez para seu primeiro filho, que ficou bem bacana com a estética sonora do BR. Em seguida, Mr. Brett acorda o ouvinte do sono com a cacetada “Marked”, um hardcore de menos de 2 minutos, com letra sobre o que o guitarrista considera ser seu “conceito de espiritualidade”. Os backing vocals tiveram participação de Jim Lindberg, do Pennywise.

Ainda sisudos na contracapa do single de STF
Inner Logic” e “What it is” são duas que poderiam ser consideradas meros fillers, mas ainda assim trazem uma empolgante levada Punker. E, fechando a versão americana do disco, há a controversa e desnecessária regravação de “21st Century (Digital Boy)”, imposta por Brett e, certamente (mas não confirmado em nenhum lugar...rs), pela gravadora Atlantic. A música não tem o punch, nem a velocidade da versão original, mas ajudou apresentar um pouco do que foi o BR do fim dos Anos 80 ao público mainstream, que agora “tinha acesso” e “consumia” a banda. Foi o 1º single do disco, obviamente ganhou um rodado clipe!

Assista o clipe de “21st Century (Digital Boy)”:

Seguindo na versão “mundial” do disco, a vigorosa “News From the Front” é um hardcore com um convidativo refrão “sing-along” e uma letra sobre a vítimas da AIDS. Fechando o disco, há a mediana “Markovian Process”, de Greg Graffin, trazendo uma típica letra (para o BR) com elementos do alter ego cientista do cantor. Na versão japonesa, o ouvinte ainda encontra a também mediana “Leaders and Followers”, composta por Greg, passando a régua na bolacha.
Capas, capas, capas...
Além de todas as 19 músicas trabalhadas em “Stranger Than Fiction”, outras 3 foram compostas, mas acabaram descartadas pela banda: “The Truth”, “Fuck Up Children” e “Fanatics”. As demos delas e de outros 7 sons que entraram no disco podem ser conferidas abaixo:
 
Rock Brigade de abril de 1995
A relevância de “Stranger Than Fiction” foi tamanha que o disco foi o eleito “número um” na lista dos 10 melhores discos com guitarra de 94 da revista Guitar World, com “Smash” do Offspring ficando em 2º. O play também entrou em muitas outras listas de “Melhores do Ano” de 1994, sendo inclusive bem resenhado aqui no Brasil, na época do lançamento.

Pesquisando em meu acervo, encontrei uma resenha de "STF" que saiu na edição de abril de 1995 da quase finada revista Rock Brigade, que resume muito bem tudo que está escrito acima. Ela pode ser lida na íntegra logo abaixo: 

“Os baluartes do punk rock californiano estão mais vivos que nunca. Ouvindo o trabalho do Bad Religion, que está na estrada há mais de uma década, dá pra sacar a fonte onde beberam bandas como Green Day e Offspring. Os refrões são irados e as letras transparecem a inquietude mordaz dos músicos. São 17 faixas com uma média de dois minutos (ou menos) de duração onde a banda demonstra ter perdido um pouco de seu ‘punch’ inicial, mas continua certeira como sempre, especialmente na faixa The Handshake, um convite à poga!” Nota 8, por Fernando Souza Filho.

Escute “Stranger Than Fiction” na íntegra: