sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Raul Seixas 2 - Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez (1971)

Oi, eu sou o Salinas! O segundo disco do Raul é bem diferente do primeiro. Esqueça as baladinhas melosas e as agruras do amor.

Com o fim do Raulzito e os Panteras, eles passaram sérias dificuldades no RJ e Raul resolveu voltar para a Bahia. Lá conheceu um diretor da gravadora CBS, que o chamou para trabalhar lá. Raul volta ao Rio e usa seus conhecimentos enciclopédicos de música como produtor.

Depois de algum tempo, com Miriam Batucada (já discografada pelo Caio no nosso Especial Semana da Mulher), Sérgio Sampaio (que o Caio também já começou) e Edy Star (o único ainda vivo), gravam um disco sensacional. Aqui sim já temos a criatividade e o vigor musical que Raul mostraria nos anos seguintes. As músicas são intercaladas com vinhetas, e cada uma segue um estilo totalmente diferente.

Reza a lenda que esse disco teria sido gravado às escondidas, e que depois disso Raul teria sido demitido da CBS. Mas o próprio Edy Star desmentiu isso (e também no documentário sobre o disco), e Raul continuou produzindo na CBS depois desse disco, saindo só vários meses depois. (Update: embora o próprio Raul tenha dito que foi expulso, mas é cascata...)

Como bem disse a Ludmila, "Os temas críticos, irônicos, brincam com o otimismo da jovem guarda, com a intelectualização da bossa nova e da MPB emergente da época. Falam da vida, das dificuldades enfrentadas, da desesperança, porém sem perder o encanto e a possibilidade de rir e se divertir com tudo. Porque senão 'os discos voadores nunca vão pousar'."

"Êta Vida" (Raul / Sérgio)

A primeira faixa começa apresentando o disco como o "Maior Espetáculo da Terra". É uma referência ao filme homônimo de 1952. Em seguida Raul conta sobre a vida no Rio de Janeiro (cujo padroeiro é São Sebastião), onde tudo é genial, mas para ele é uma gaiola dourada: "Mas não era o que eu queria / O que eu queria mesmo era estar em paz".

"Sessão das Dez" (Raul)

"Eu comprei uma televisão... que distração". Já naquela época, a vinheta em 3/4, quase infantil, alerta sobre a influência da ~caixa de loucos~. Em seguida, num ritmo de seresta, com direito à "flautinha matadeira" e um cavaquinho, Raul conta como encontrou um romance no cinema que, depois de dez anos, termina sem motivo aparente. É um alerta para os relacionamentos baseados apenas na aparência, pois sendo "inocente, puro e besta", se casou com alguém apenas porque lhe "ofereceu pipoca" para "curtir com seu corpo". No final, não se sabe se ele aprendeu a lição, mas o fato é que nunca mais foi ao cinema: "Foi tamanho desengano / que o cinema incendiou."

"Eu Vou Botar pra Ferver" (Raul / Sérgio)

Bem festiva, mas os dois primeiros versos já resumem o tema: "Eu vou botar pra ferver / no Carnaval que passou". Fala sobre a animação e empolgação da festa como se fosse vindoura, mas na verdade fala somente de lembranças, pois é o Carnaval que passou. Destaque pra guitarrinha muito brilhante.

"Eu Acho Graça" (Sérgio)

Festa de arromba, som rolando, guitarras enlouquecidas, tanto quanto os convidados, de repente o telefone toca. Alguém pergunta por Jorginho Maneiro, e se alegra ao confirmar que ele virou mesmo hippie, numa gargalhada lisérgica. Acaba a vinheta e começa uma percussão acompanhada de agogô e órgão hammond. Sérgio fala sobre ignorar críticas, e se manter focado nos seus objetivos.

"Chorinho Inconsequente" (Edy / Sérgio)

"Há um hippie bem no meu portão", na mesma vinheta em 3/4 da segunda faixa. Uma mistura de samba com guitarras distorcidas, e Miriam Batucada faz uma declaração de amor à cidade que ela queria ter "toda dentro de seu coração". Ou será um tapa com luva de pelica, falando bem de uma cidade que não está em seu coração? (Mìriam é paulistana, Edy é baiano.) Intercalada com naipes de metais e strings bem anos 50, junto com as guitarras distorcidas dos 70's. Olha aí a anarquia Raulzística chegando!

"Quero Ir" (Raul / Sérgio)

A entrada triunfal brada: "Viva nós!" Um rápido beat-box seguido por um baião ao estilo Raul, com acordeão e triângulo, mas também com guitarra e baixo. Na letra, Sérgio e Raul estão descontentes com a cidade, com pouco sol, quase nada de ar, e ruas que não têm fim. Surge o desejo de "voltar pra Bahia, ou pra Cachoeiro do Itapemirim" (cidade natal de Sérgio, e também de Roberto Carlos - seria um "aquele abraço" pro Rei?). Um desejo rápido, violento, instintivo, "se pensar já era".

"Soul Tabarôa" (Antônio Carlos e Jocáfi)

A única faixa do disco não assinada por nenhum dos quatro Kavernistas. Aqui Míriam, com sua voz rouca, está alegre por "dançar um soul míuses"! Ela pede respeito com o xaxado, já na época queria "mais amor, por favor" em vez de todo aquele assanhamento do Rio. O jibão que ela bate na dança é aquela jaqueta de couro cru usada pelos vaqueiros no Nordeste, para proteger do sol e dos espinhos.

"Todo Mundo Está Feliz" (Sérgio)

Sérgio (em cima), Edy, Miriam e Raul
Em plena Cinelândia, uma entrevistadora pergunta a um transeunte qual seu tipo de música preferido, "melodiosa" ou "barulhenta" (com desdém na última). E leva um puxão de tapete, pois o entrevistado é ninguém menos que o Raulzito! Uma pegada mais rock e menos "brasileira" do que as faixas anteriores. "Todo mundo está feliz aqui na Terra"... será um sonho ou apenas sarcasmo?

"Aos Trancos e Barrancos" (Raul)

Sambinha sensacional do Raul, um tom meio resignado, vê que a vida no fim não é lá o que ele sonhava, mas está satisfeito com seus bens materiais, e percebe a vida passando, sem "tempo para pensar sob este sol", nem pra "ver seu enterro que vai passando no jornal".

"Eu não Quero Dizer Nada" (Sérgio)

Uma introdução de terror prepara para algo satânico vindo aí! Mas calma... em seguida um cravo traz a paz da "quase meia-noite no aterro do Flamengo". Sérgio não consegue se despedir de alguém por ser "tão legal". Estaria mandando um abraço pra Gal Costa?

"Dr. Paxeco" (Raul)

Uma descrição de personagem, em meio a um baixo malandro pontuado com percussão em beat-box. Dr Paxeco é a síntese do "do-do-do-dotô" bem-sucedido, que sobe na vida pisando em ombros e passando a perna em quem fosse necessário, mas que só "tem nos olhos o cifrão".

"Finale" (Edy / Míriam / Raul / Sérgio)

Uma fanfarra de encerramento, nos mesmos moldes circenses da apresentação. E pra fechar com chave de ouro, a inesquecível privada sendo dada descarga, como se fosse a opinião deles sobre o trabalho. Se você ainda não entendeu que a lei por aqui é sarcasmo e anarquia, é a sua última chance!

Mais infos sobre o disco aqui. E quem não encontrar o disco nas boas casas do ramo pode quebrar o galho no Youtube.

E é isso! No próximo post começaremos a análise da carreira solo do Raul com o Krig-ha Bandolo. Até lá!


domingo, 26 de janeiro de 2014

EngHaw - 2° A Revolta dos Dândis

Hey, pessoas! (:

A primeira grande mudança no segundo CD dos EngHaw é na formação, que já mostra o futuro fatídico da banda, a primeira baixa: Sai da banda Marcelo Pitz – então baixista – e entra Augusto Licks, que já era fã da banda, assumindo a guitarra e deixando Gessinger se realizar no baixo, instrumento que sempre lhe fascinou.



Essa mudança foi sentida com clareza no álbum, que já tem outra cara. Tanto pelo baixo, super marcante no primeiro disco e que agora, não menos poderoso, mas com outra pegada... Quanto por deixar o ska de lado, assumindo um formato mais manso, com musicas mais simplistas e ar de maturidade. Nesse novo álbum, as letras estão mais complexas também, ganham mais densidade, referências pesadas, e a crítica caiu em cima, dizendo que a banda era elitista pela sofisticação das composições (qual é, crítica... Seu público não gosta de pensar?).


Característica já anunciada no título: A Revolta dos Dândis – pensando no dandismo como o movimento ou atitude comportamental de jovens do século 19, sem berço de ouro, que adotavam a elegância e requinte (tanto na forma de agir quanto de se vestir), gosto pelas artes, conhecimentos refinados e intelectuais da elite da época, passando a ocupar espaço entre eles, como que parte da burguesia, numa busca de integrar um grupo ao qual eles não pertencem essencialmente, e jamais verdadeiramente pertenceram, tanto pela rejeição daqueles que pertencem a este meio pelo seu natural poder socioeconômico, quanto por ter deixado o meio do qual realmente vem, entre os mais humildes.

Talvez um retrato do momento da banda, que nas grandes capitais (SP, Rio, onde as coisas maiores aconteciam na cena musical) era tida como banda sulista, mas no Sul já haviam perdido esse calor patrício, vista como som de fora (ou feito pra fora). 

   
     Com uma gaitinha inédita, mas que viria a marcar tanta presença, a faixa que dá nome ao disco entra distribuindo discussões existenciais.
     Um estrangeiro sem terra natal, que veio de um trem sem itinerário, à espera outro também sem destino... Que não conhece seu lugar no mundo, à que grupo pertence, que forma tem. "Entre um rosto e um retrato/O real e o abstrato", perdido e preso entre o meio termo, entre planos e realizações, pensamentos e atitudes. A crise e revolta de um Dândi que percebeu ter se afastado demais de onde veio, por natureza ou gosto, a ponto de não se encaixar mais, na busca de algo que ele não consegue concretizar, um destino ao qual ele também não pertence...  

     2. Terra de Gigantes
     "Hey mãe, eu tenho uma guitarra elétrica/Durante muito tempo isso foi tudo que eu queria ter [...] Hey, mãe, tem uns amigos tocando comigo/ Eles são legais, além do mais, não querem nem saber..." - Quem nunca? rs. 
     Pegada mais calminha, reflexiva, arranjo bem marcante... Fala sobre esse momento em que "a ficha cai", e você percebe que a vida não é tão simples de se entender, que a felicidade não vem fácil como se imaginava, enquanto sonhava em ter uma banda, e que essa energia da juventude é apenas combustível pra uma terra de gigantes, em que as vidas valem menos que diamantes. 

     3. Infinita Highway
     Inegavelmente, a música da minha vida. Durante um bom tempo eu neguei isso, não querendo usar como mantra pessoal uma das músicas mais populares da banda (é muito mais cult o desconhecido, certo? rs), mas não dá mais pra negar. Eu desconheço uma música com tanta filosofia por segundo... E ainda mais difícil, tão "infinita" quanto o título, 6' e alguma coisa de pura reflexão. 
     Uma das coisas que eu mais admiro no Gessinger é a habilidade de dizer tanto, em tão poucas palavras, e mesmo a música sendo tão longa, ele mantém isso, e cada linha daria uma dissertação sobre existencialismo.
     O que é a vida, se não uma estrada sem fim? E quem de nós sabe qual o sentido ou objetivo disso tudo, as leis dessa infinita highway? 
     "[...] Eu posso estar completamente enganado/Eu posso estar correndo pro lado errado!/Mas, a dúvida é o preço da pureza/E é inutil ter certeza [...]"
     
     Voltando a falar de amor, agora com uma cara mais madura, sem medo de parecer piegas, fala em um clima mais romântico e levada mais lenta, acabando num belo solo de guitarra, sobre as fraquezas de um pobre homem, escravo de sua sinceridade e do poder dos gestos e olhares de uma mulher, da essência enfeitiçadora da mulher, que poderia ser qualquer uma, qualquer Ana que você conhece, por esse nome ou não. ;)

     Mais revolta, mais riffs de guitarra, mais rock! (com um solinho de um tamborim antes do refrão, e uma cuiquinha no final? rs). Mais uma canção raivosa falando sobre a imbecilidade da guerra, e de como isso é manipulado pra ser encarado tão normalmente, sob a ótica de alguém que se recusa a achar tudo isso natural... "[...] Não me peça pra entender/Não me peça pra escolher/Entre o fio ciumento da navalha/E o frio de um campo de batalha [...]". O fim do século marcando o retorno ao início, com mentalidade primitiva de guerra e desunião, numa trajetória que nunca evolui, um ciclo que quando parece estar chegando em algum progresso, volta à irracionalidade.

     Certa vez vi uma entrevista do Humberto, em que ele dizia não entender o porque dessa necessidade de sempre começar uma música completamente do zero, ser algo totalmente novo, único. Existem milhões de maneiras de se dizer a mesma coisa, milhões de coisas pra se dizer de modos diferentes... E a partir daqui ele mostra a maestria com que reinventa as músicas, retrabalha e transforma em algo novo. "Entra ano e sai ano/Sempre os mesmos planos" x "Nossos planos são os mesmos há muito tempo/Mas não há mais muito tempo pra sonhar". Como que sob nova perspectiva, ele fala do mesmo tema, mas agora, não do seu desencontro, mas do insucesso de todo o resto, do quanto cada extremo se afasta do equilíbrio e perde sua essência. "Tudo é igual quando se pensa em como tudo deveria ser".

     7. Além dos Outdoors
     Baixo poderoso, me lembra "Soultans of Swing", melodia muito envolvente. Fala sobre uma verdade implícita a tudo, mas que não ta escrita na testa. As coisas mudam de formas, mas não mudam sua essência, o seu caráter primário. Somos bombardeados de informação e influência, condicionam a massa a se adaptar e "artificializar", o que nos resta de natural, é pura falta de opção, incapacidade de alterar, e cada dia mais "Há poucos que já foram/E muitos que nunca serão".
     Nessa faixa, Gessinger sita Albert Camus (Livro: O Homem Rebelde) na frase "As coisas mudam de nome/ mas continuam sendo religiões".

     8. Vozes
     Uma introdução que lembra muito "Terra de gigantes", nesse estilo tão classudo de reinvenção, essa música faz uma auto-defesa, da necessidade e dificuldade de lidar com a solidão, de um modo de vida arredio, justificado por mudança de gostos e comportamentos que ainda o assombram. "Duas pessoas são duas verdades/ E na verdade, são dois mundos", cada um tem seus próprios fantasmas, e é impossível compreender completamente sem mergulhar em cada mundo específico.
  
     Essa me faz pensar justamente na crítica que o CD gerou... Quem critica, dificilmente tem um interesse sincero, real, e a análise fica pobre se você não pára pra ouvir, pra entender o que se passa. "Dando a impressão de que na areia movediça, nada se desperdiça". Tudo o que parece estar sendo absorvido, na verdade pode estar sendo ignorado.

     10. Desde aquele dia
     Mais uma das canções de amor, cada vez mais envolventes, com melodia tão bem trabalhada, e a costumeira ausência de confetes pra falar de amor. Fala de uma mulher que aparece como uma heroína, pra lhe salvar de uma vida com poucas perspectivas, e se transforma na sua paz, mas em um dia (em que parece que chovia, rs) deixou um vazio, que nada sacia, e muda tudo.

     11. Guardas da Fronteira
     Faixa que conta com a participação nos vocais de Júlio Reny (cantor e compositor conterrâneo), e critica a hipocrisia da mídia, que tenta ditar filosofia de vida entre comerciais. Sempre focados em lucrar, mantém a visão das pessoas na sua realidade editada, como se não houvesse nada além. Mas sempre haverá alguém pastando fora do rebanho... "Acontece que eu não tenho escolha/Por isso mesmo é que eu sou livre/ Não sou eu o mentiroso/ Foi Sartre quem escreveu o livro/ Não sou afim de violência/ Mas paciência tem limite".

     E o link pra ouvir o CD na íntegra... Enjoy! (:


E na próxima, Ouça o que eu digo: Não ouça ninguém! ;D rs.

No More Kings - and the flying boombox 2009

E o segundo e (por enquanto) ultimo disco do No More Kings. No site oficial eles já lançaram vários singles, mas sem compilar nenhum disco. Talvez não o compilem nunca, neste caso volto a falar deles e resenho as músicas soltas mesmo. (essas coisas modernas de vender música avulsa podem virar um problema pra esse blog um dia).

O segundo disco, and the flying boombox, é quase todo em funk e disco. O que foi uma excelente novidade, não é mais do mesmo, agora todo dançante e cheio de falsetes e vozes de robô. Os temas continuam flertando com a cultura pop.

Vamos ao disco

1- Obey de Greoove: No melhor estilo funk dos anos 70, com falsete e voz de robô, conta sobre um boombox voador resgatando alguém de Footloose e viajando pelo sistema solar. ótima música de entrada, bem dançante e animada. Mostra bem o tom do disco.

2- Dance Alone: Segue a linha da primeira música, mais disco, tem um solo de guitarra bem legal e a letra me parece inspirada em embalos de sábado a noite. Mas nenhum comentário oficial da banda sobre isso. O ritmo é uma boa emulação do disco dos anos 70, mais falsete e voz de robô, mas mais animada que a música de abertura.

3- Something to Hide: Uma música mais para o rock, mas bem puxada para os anos 70 (essa não tem voz de robô). O ritmo é bem legal, cheio de pausas, a letra nem tanto, mais uma música sobre privacidade e tempos modernos. Não chega a ser ruim, mas não é tão boa quanto as outras letras da banda.

4- Critical Hit: A minha música preferida desse álbum. Critical Hit tem uma batida bem funk, algo que tocaria em algum lugar nos anos 70. O vocal segue sem grandes variações, tem um back vocal bem legal no refrão. A música usa de um trocadilho de uma partida de RPG onde alguém tira 20, um critical hit, com o critical hit sendo traduzido como sucesso de crítica. Michell, no blog da banda, disse que gosta de imaginar um dos caras que batia nele no colegial por jogar Dungeons ans Dragons, dançando e cantando critical hit sem saber  do que se trata. Ótima múisca, ótimo refrão e nada mais legal que todos dizendo "Oh Yeh, Critical Hit" quando aguenta acerta e dá o dobro de dano.

5- King of Rock - Sucka Mcs: É puxada para o Rap, mas nem tanto assim, fala de um garoto branco sendo Mc e indo para a faculdade. Não achei referência no site da banda. Aparentemente é um tipo de resposta ao King of Rock do Run DMC, pode ter outra referência mais obscura, mas não saquei qual é.

6- Circle Gets a Square: Uma parada na batida disco e vem uma balada. com um belo back vocal, uma música leve, mais puxada para o pop/rock do primeiro disco. Não existem notas da banda sobre o tema da música, a imagem oficial é de um astronauta dividindo a tela com uma partida de tetris, pode ser uma opção. Mas estou mais inclinado a achar que se trata de uma partida de jogo da velha. círculos colocados em quadrados e com X em todos os cantos. E como é a vida, uma música sobre jogo da velha me fez parar e pesquisar sobre o que ela era. Gostei da música e da letra.

7- Leroy and Me: Um funk anos 70 com todo a parte de sopro que se tem direito, poderia passar pela música tema de algum seriado policial dos anos 70 tranquilamente. Acredito que a letra fale sobre a dupla de policiais enfrentando situações clichês em séries policiais. Como não ligar para lei e dar a volta para pegar os bandidos, isso é uma hipótese minha, não encontrei nenhuma referência. Recomendo muito a versão ao vivo com Terry Fator : http://www.youtube.com/watch?v=iyPV-uLNXEQ

8- Paper Airplane: Completamente funk, algo que James Brown teria cantado, tá o vocal seria completamente diferente, mas o resto da música parece bem autêntica dos anos 70. Começa com uma entrada de piano, tipo piano bar, ai vem o funk com os instrumentos de sopro e a guitarra. A letra é sobre um avião de papel voando de acordo com o tempo, ou é uma metáfora sobre as oportunidades da vida, funciona dos dois jeitos.

9- Write me a Letter: Uma triste música dos anos 70, alguém que está partindo, não está se sentindo bem e pede para que alguém escreva-lhe uma carta. Não identifiquei referências, pra falar a verdade fiquei totalmente perdido nessa.

10- Robots Don´t Cry: Depois de Critical Hit essa é a minha preferida do álbum. Com o nome obviamente inspirado no sucesso do The Cure, Robots Don´t Cry é obviamente sobre o filme "Um robô em curto circuíto". (talvez seja sobre a franquia e não apenas só o primeiro filme). Um pouco mais melancólica que as outras músicas do disco, não poderia ser diferente, quem já assistiu ao filme sabe do que estou falando, tem ótima letra e melodia. Adoro o back vocal dizendo "hold on" e o instrumental é ótimo.

11- Cellphone: Pelo título essa poderia ser mais uma música sobre namoro não correspondido ou sobre o cara que pega todas na balada e marca o telefone das garotas no celular, mas é de No More King que estamos falando aqui. A música é sobre o mago Merlin e seu celular, e o rei Arthur que liga apenas quando precisa de algo, com seus mandos reais e não tem tempo para conversar com o amigo que lhe ajudou tanto. É muito interessante como a música coloca personagens de fantasia numa situação tão comum. Eu já gostava da baladinha que é essa música, ela parece ter muito mais em comum com o primeiro disco do que este, e achava a letra intrigante, mas só consultando o site da banda que descobri do que a letra realmente tratava.

Assim encerro (por enquanto) a resenha dos discos dessa excelente banda um tanto obscura. E acredito muito que os meus textos (incluindo o que escrevi no meu blog em 2011) e o disco anterior, as únicas resenhas em português dessa banda.

Minha próxima resenha é de um disco só, mais geek do que No More Kings e muito indie.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Raul Seixas 1 - Raulzito e os Panteras (1968)

Oi, eu sou o Salinas! O primeiro disco do Raul foi com a banda dele na época, Raulzito e os Panteras (com Eládio Gilbraz, Mariano Lanat e Carleba), que tinha muita influência dos Beatles (inclusive na capa, que segue graficamente o modelo de With the Beatles - outros também fizeram isso). Porém, na época o disco não teve muito sucesso e isso determinou o fim da banda. O baterista Carleba mais tarde chegou a tocar com Tim Maia e outros, mas Eládio e Mariano não se tornaram conhecidos. O álbum foi gravado pela EMI-Odeon e inclui um cover de "Lucy in the Sky with Diamonds". A maior parte das canções é assinada por Raul, seguindo um estilo bem Beatles, mas algumas canções seguiram por um caminho próprio.

O tom geral das músicas e do álbum como um todo me passa tristeza. Não sei se por alguma nostalgia minha com o rock "estilo antigo" ou por causa das temáticas das letras (em geral sobre relacionamentos conturbados), esse disco traz muito pouco daquele Raul animadamente crítico que vemos nos anos seguintes. Mas no final dá uma animadinha, e de certa forma o conjunto das letras meio que conta uma historinha: as desventuras de Raulzito em busca do amor.

"Brincadeira" (Mariano)

A primeira faixa já dá o tom do disco, com o vocal do Raulzito sendo seguido pelos demais, alternando com a guitarra entre as estrofes. Raulzito tenta a reconciliação com a amada, que aparentemente está a "brincar" com seu coração.

"Por quê? Pra quê?" (Eládio)

Esta é uma das preferidas do próprio Raul Seixas, e na letra já vemos as influências filosóficas que continuariam nos discos seguintes, falando sobre as dúvidas metafísicas que já há muito povoavam a mente de Raul. E no fundo, aquele tecladinho de cortar os pulsos...

"Um Minuto mais (I Will)" (Dick Glasser - Versão: Raulzito)

A primeira "versão" incluída no disco, feita a partir de uma canção de Dick Glasser, regravada por Vic Dana, Dean Martin e vários outros. O arranjo de entrada tem uns metais calorosos, ajudados pelos backing vocals. Raulzito foi abandonado mas ainda está apaixonado, sonhando com um possível retorno da amada.

"Vera Verinha" (Raulzito/Eládio)

 Mais uma baladinha lenta, com um belo arranjo de vozes na entrada, e uma estrofe declamada ao som de guitarra. Raulzito alimenta esperanças de um dia conquistar o amor de Vera Verinha.

"Você ainda Pode Sonhar (Lucy in the Sky with Diamonds)" (Lennon/McCartney - Versão: Raulzito)

A outra "versão" incluída no disco, feita a partir do clássico dos Beatles gravado no ano anterior. A introdução mais lenta, alternando com o refrão mais animado. A letra na tradução tem mais nostalgia que o original, com lembranças da infância, no lugar da psicodelia de céus de tangerina e flores de celofane.

"Menina de Amaralina" (Raulzito)

Depois de tanta choradeira, esta balada tem um tom mais quente e esperançoso. Raulzito se apaixonou novamente! Em Amaralina alguma garota balançou o coração dele.

"Triste Mundo" (Mariano)

Com uma entrada quase triunfal, Raulzito volta a se entristecer com mais um amor que não deu certo. Solinho de teclado.

"Dê-me tua Mão" (Raulzito)

Mais uma baladinha sobre fins de relacionamento, mas desta vez quem está triste é a gaja. Raulzito está indo embora, mas promete voltar. Provavelmente algum coração ficou partido quando do famoso convite de Jerry Adriani...

"Alice Maria" (Mariano/Raulzito/Eládio)

Uma das músicas mais tristes do disco e com a letra mais lacônica. Mais um jogo de vozes com a baladinha lenta ao fundo, e a genial sacada: "Adeus ao amor / Que ali se partia"... isso é de chorar... :'-)

"Me Deixa em Paz" (Mariano/Raulzito/Carleba)


A partir daqui as coisas ficam mais animadas. A banda deixa de seguir tão de perto o estilo Beatles e começa a brincar mais. Raulzito pelo jeito aprendeu a lição e não quer mais saber de se apaixonar. E o batera puxa uma surpresinha no final!

"Trem 103" (Raulzito)

A levada, vozes e bateria imitam o som do trem, que levou o "bem" de Raulzito. E ele quer ir também!

"O Dorminhoco" (Carleba/Eládio/Raulzito/Mariano)

E pra fechar com chave de ouro, depois de tantos altos e baixos, Raulzito finalmente está de bem com seu amor. Agora ele quer continuar dormindo com seu benzinho. O problema é que ela não lhe dá sossego: "Passo o dia dando duro / E não vejo a hora de me deitar / E quando volto está escuro / E você me pede pra passear". Mas esse é o tipo de problema ~bom~ de resolver!

Mais infos sobre o disco, aqui. E quem não encontrar o disco nas boas casas do ramo pode quebrar o galho no Youtube:



E é isso! No próximo post vamos para um dos melhores discos do Raul: o da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista. Até lá!


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

EngHaw - 1° Longe Demais das Capitais


Olá, pessoas! (:

Com quase 2 anos de existência da banda, os EngHaw (que nessa época eram: Humberto Gessinger, Marcelo Pitz e Carlos Maltz) lançavam seu primeiro LP no final de 1986 pela gravadora RCA – hoje Sony Music (graças ao “empurrãozinho” de Sopa de letrinhas e Segurança, lançadas na coletânea Rock Grande do Sul) com um som, como diria o próprio Gessinger “pop demais pra ser rock, rock demais pra ser pop e MPB demais pra ser os dois...” (Na minha humilde opinião, num legítimo rock nacional oitentista) com influência desde Pink Floyd até Bob Marley, e dentre outros conterrâneos, do Nei Lisboa - que inclusive participa no vocal da primeira faixa “Toda forma de poder”

Num clima super "herdeiros da pampa pobre", os caras estreiam mostrando pro mundo um trio que vem de um lugar Longe Demais das Capitais, sem acesso nem visibilidade, sem preocupações com tecnologias e/ou modernidades, tanto de equipamentos quanto de estilo, em uma geração que coleciona guerras e já não faz revolução, num estilo super Tyler Durden. Provincianos que saíram da província, e agora já não pertencem a lugar nenhum...




Certa vez, vi uma entrevista do Gessinger, em que ele dizia que não curtia ficar explicando as letras, o que ele queria dizer com elas, inclusive gravar clipes, justamente pra deixar a interpretação da obra única pra cada um, não direcionar o entendimento e deixar as músicas bem vagas e livres de contornos, de significação específica, limitada. Isso me lembrou de outro gênio que também tem esse estilo, de fazer arte e te jogar na cara assim, sem justificativa. Só que não da música, do cinema. O David Lynch tem esse costume delicioso de juntar uma porrada de informação, sempre muito bem amarrada e envolvente, mas que pode parecer não fazer nenhum sentido se você não parar e se concentrar pra decifrar... E quem disse que precisa fazer sentido? Pra duas pessoas diferentes, uma mesma música, ou filme, podem ter mensagens infinitamente diferentes (como diria Raulzito, “cada um de nós é um universo”), e é aí que está a beleza e investida desses caras: no subjetivo.



Pensando nisso, quero lembrar a quem quer que possa ler e discordar do que escrevo aqui, que esse blog é alimentado por pessoas e suas impressões pessoais, e também, de me declarar infinitamente à vontade pra dividir a minha experiência e relação metafísica com a obra dessa banda tão densa! *-*

Uma crítica raivosa à toda forma de controle, mas também de passividade. Como toda moeda, tudo tem duas (ou mais) faces. De um lado: um povo inerte e alienado, sem posicionamento político, consciência ou senso crítico, sem ideais, com comportamentos que oscilam entre comodismo e idiotice, do outro: ditadores que dominam facilmente a massa, quase que num deboche sob um disfarce de pôr ordem, distorcendo valores ao longo de versões cada vez mais distorcidas da história, implantando uma cultura de guerra e ignorância. Desejando não fazer parte de nada disso... Esperando que venha ao seu encontro alguém que vá amenizar essa inquietude, que o transporte pra outra realidade, quem sabe...
Essa versão é bem agitada, assim como todo o CD, ela chegou até a entrar na trilha sonora de uma novela global – Hipertensão (Ora, vejam só... rs), os Engenheiros já começaram com o pé na porta! o/ 
E tem a participação do Nei Lisboa no vocal, o que eu confesso ter passado muitos anos ouvindo essa versão sem perceber! =X (obrigada por me apresentar o cara, Caio! Rs).

Eu não manjo muito de baixo, sempre achei bem difícil ouvir bem o som dele na música cheia... Mas, se você também tem essa dificuldade, essa música é ideal pra curtir o som dele! É inclusive uma das poucas músicas que já ouvi em que já reparei tanto nele num chorus...
E o que é segurança pra você? Quais seus critérios de envolvimento pra um relacionamento?
Prefere um “Don Juan, bom vivant” que te encara como serviço pro banco traseiro do carrão importado?
Pensa nisso enquanto curte o baixo... Se sim, já aproveita e dança, rs.

Essa também tem um baixo bem gostoso! Nessa época o Gessinger ainda não tava no baixo, mas ele já disse em algumas entrevistas que sempre curtiu o instrumento, e acabou tocando depois que o Pitz saiu... Acho que por isso ele é tão bem trabalhado... Ou talvez eu não manje nada e tô reparando porque sei que é ponto forte da banda.
Bom, pelo menos nesse primeiro CD dá pra sentir que é.
Qual o pior vício, a passividade de uma vida assistida na 3° pessoa pela tela da TV, acompanhando informações que você finge que se importa, ou aquela paixão que te persegue - desacompanhada da pessoa amada?
Se ela consegue te roubar a atenção do noticiário, mas some... Onde você a encontra?

Levada de reggaezinho, lembra Paralamas... Mas essa narrativa é inconfundível. Esse questionamento insistente de como é que viemos parar nesse estado lamentável de autodestruição, de valores vendidos, gosto por sangue e poder, o sentimento de não pertencer a nada disso...

Tapa na cara dos “rebeldes sem causa” que querem mudar o mundo, que acreditam numa salvação para o sistema, baseado na mídia, alimentando tudo aquilo que esta errado em troca dos seus empregos e estabilidade garantidos, tentando fazer revolução de acordo com as regras que na verdade deveriam estar sendo quebradas...

Letra super crítica (Oh, que coisa rara... rs) que sugere um clima de tensão, de preocupação com o rumo das coisas, com a guerra eminente, mas com um som alegrinho, irônico até, debochando do quanto caminhamos pra essa tragédia tão orgulhosos disso, como somos “rebeldes sem rebeldia, viciados em anestesia”.
A paz deixou de ser o desejo de uma civilização corrompida, que tomou gosto pela conquista do poder.

Uma verdadeira canção de amor ao avesso... Esqueça esse papo de tampa da panela e metade da laranja. Diferentemente do continente, que integra as cidades, aqui nos vemos como ilhas, separadas, individuais. Porque acreditar que precisamos nos completar em outra pessoa? Não conseguir essa “fusão perfeita” é algum crime?
“Não me leve a mal, mas eu não tô legal, quero ficar sozinho
Eu sou um bom rapaz, mas eu não sou capaz de seguir o teu caminho”.

A cara do álbum e do estado de espírito da banda! Longe demais de onde tudo acontece, perdidos como em outra dimensão, mas sugerindo uma certa satisfação nisso, nas tradições e simplicidades da “velha forma de viver”, satisfeitos em desfrutar dessa suavidade da vida fora dos holofotes. Tão ao sul, fora do alcance de todas as transformações desse mundo que não nos alimenta nenhuma esperança de melhora.  

Mais uma, mais pro reggae que pro rock, outra musica que fala do quanto o amor é complicado, sem resposta ou fórmula. Um cara um tanto rejeitado, desaprovado, mas que ainda assim, insiste.

Começa num clima melancólico, falando de vazio... vai alternando entre essa pegada lentinha e outra mais swingada... Flertando com a ideia de uma relação entre duas pessoas muito diferentes, que não se combinam nem necessariamente se amam, mas mesmo não tendo nada a ver, nos momentos de carência, também não tem nada a perder.

Eu vejo nessa musica uma reflexão de tudo o que vemos acontecer de errado à nossa volta, e nada fazemos pra mudar. A gente evolui em essência, mas não nos incomodamos com os grandes problemas que evoluem conosco, aprendemos a conviver e a ignorar... “Tudo isso já faz parte da rotina/ e a rotina já faz parte de você/ você que tem ideias tão modernas/ é o mesmo homem que vivia nas cavernas”.


Composta em parceria Gessinger/Pitz, trilha da novela Corpo Santo – exibida na extinta Rede Manchete, uma das músicas que impulsionaram o lançamento do LD. Fecha o álbum com a visão do amor nada perfeitinho, coerentemente com as demais canções de amor, em uma paixão quase adolescente “O nosso amor é uma abobrinha/ Eu escrevo o teu nome numa sopa de letrinhas/ Eu fico sonhando em ser astronauta/ Eu olho pra lua, eu sinto tua falta,
Oh!". Bem animadinha e mais pro rock! 



E aqui o link pra ouvir o CD na íntegra, faça isso por você e ouça! :)



... Até a Revolta dos Dandis!

Charly García 2: "Clics modernos", 1983

Clics modernos é o segundo disco solo de Charly García, lançado em 5 de novembro de 1983 e considerado por muitos como o melhor disco do artista e um dos melhores da história do rock argentino. 

As gravações deste disco foram feitas em Nova Iorque nos estúdios Electric Lady (criados por Jimi Hendrix). Estando nesta cidade, Charly comprou vários instrumentos novos que permitiram a experimentação de novos sons, atacando com o uso de samplers e sintetizadores modernos. Contando ainda com Pedro Aznar nos baixos fretless, Casey Scheuerell na bateria, Doug Norwine no sax na faixa "Nuevos trapos", além do lendário guitarrista de jazz, Larry Carlton na guitarra nas faixas "No soy un extraño", "Los dinosaurios" e "Plateado sobre plateado". 

Diferentemente do disco anterior que tinha uma estilo mais próximo do Rock Progressivo, este já tem uma pegada mais New Wave com temas mais dançantes.


Conta a história que o nome do disco foi escolhido aleatoriamente após um passeio pelas ruas de Nova Iorque onde Charly viu este graffiti com o mote «MODERN CLIX». Aleatoriamente inspirado por este nome, Charly mudou o nome do álbum que inicialmente se chamaria "Nuevos Trapos" para "Clics Modernos".


São 9 faixas, todas escritas e compostas por Charly García:


1. Nos siguen pegando abajo (pecado mortal)

Assim como diversas canções do disco anterior, aqui vemos referências à ditadura militar argentina. A letra faz referências à censura moral, o abuso de poder e violência. 

"Miren lo están golpeando todo el tiempo 
lo vuelven vuelven a golpear 

nos siguen pegando abajo."

2. No soy un extraño

A música é uma espécie de tango macabro com samplers e uma linha de baixo constante. "No soy un extraño" o autor fala como um narrador sobre as transformações que seu local passa a viver e não se pode enfrentar as mudanças com a mesma atitude ou usar o mesmo parâmetro para medir duas realidades distintas (no hay que pescar dos veces con la misma red). Uma clara alusão ao processo de redemocratização que estava por vir. 

3. Dos cero uno (transas)

Nesta canção Charly ironiza sua suposta falta de princípios:

"Él se cansó de andar haciendo canciones de protesta
Y se vendió a Fiorucci.
Él se cansó de andar haciendo apuestas
Y se puso a estudiar.
Un día se cortará el pelo
No creo que pueda dejar de fumar"

O artista que sempre ostentou cabelos compridos e um estilo hippie nos anos 70, causou estranheza aos fãs quando apareceu com o cabelo curto. Teria Charly se vendido e abandonado as canções de protesto? É com isso que a letra brinca...

4. Nuevos trapos

A princípio a letra parece falar sobre uma relação amorosa (tema constante na obra de Charly)

"Daría cualquier cosa por amor
daría cualquier cosa por poderte dar un poco más
más de lo que puedo dar.
Pero a la vez quiero decirte que
te encargues de tu vida
porque yo no soy mejor que vos
vos no sos mejor que yo."

Mas logo o discurso se desdobra no que pode ser uma clara alusão à ditadura:

"Habiendo compartido aquel terror
habiendo convivido en esta desolación total

ya no es necesario más"

5. Bancate ese defecto

"Bancate ese defecto" é uma crítica à compulsão pela estética e pela cirurgia plástica, dizendo: "Ei, encare esse defeito!". Esta leta basicamente fala sobre encarar e assumir os defeitos ao invés de disfarçá-los ou mascará-los. Por mais que tente escondê-los eles sempre aparecerão, então o melhor seria aprender a conviver com eles, e até um dia descobrir que o defeito pode ser uma virtude. 

6. Estoy verde (No me dejan salir)

Os teclados e os gritos de James Brown sampleados marcam o ritmo desta música que gruda na cabeça. A ideia desta letra é parecida com a de "Yendo de la cama al living" só que bem mais pop. E este confinamento retratado na canção do primeiro álbum aqui não é só física, mas mental na impossibilidade de sentir, produzir e amar. Esta com certeza é a música mais pop e dançante do álbum.

7. Los dinosaurios

"Los dinosaurios" é a canção que mais constrasta com o conceito do disco, parecendo um flashback da banda Serú Girán, com pianos e o estilo de cantar próprios desta fase. A letra fala sobre os desaparecidos da ditadura: os amigos do bairro, os cantores de rádio, os amores, os jornalistas. E no final revela uma esperança de que por fim "los dinosaurios (a ditadura) van a desaparecer".

8. Plateado sobre plateado (huellas en el mar)

Esta canção fala sobre o exílio e sobre os "vôos da morte" que era uma técnica utilizada pela ditadura argentina de atirar corpos ao mar em pleno vôo.

"Huellas en el mar" significa em português "pegadas sobre o mar". Quando você pisa em terra firme sua pegada se fixa por mais tempo, mas se você pisa na água esta pegada existirá por uma fração de segundos. Esta letra fala sobre como tudo passa tão rápido. 

"Huellas en el mar
Sangre en nuestro hogar
Tenemos que ir tan lejos para estar acá, para estar acá."

9. Ojos de videotape

A única música lenta do disco, "Ojos de videotape" começa lânguida com um piano e vai crescendo com a entrada do baixo e das baterias eletrônicas que quebram a impressão de ser uma música do Serú Girán. A letra é triste e parece falar sobre uma despedida, incorporando uma sensação de frieza ou indiferença característicos da contemporaneidade. O conjunto de letra e música conferem densidade à faixa que encerra o álbum.




Assim fechamos o segundo álbum da discografia solo de estúdio de Charly. "Clics Modernos" recentemente completou 30 anos de seu lançamento e continua sendo um disco fundamental de sua obra, marca a mudança de estilo do artista rompendo a imagem hiponga setentista que trazia de seus trabalhos anteriores e começa a apostar em temas mais pops, ainda que tenha clara influência do período de governo militar que se encerrava naquela ano.

Disco na  íntegra:




No próximo post voltarei para falar sobre o álbum "Piano Bar", lançado em 1984.

flw vlw!


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Nei Lisboa 3: "Carecas da Jamaica", 1987

Enfim o meu disco favorito do Nei, "Carecas da Jamaica", de 1987. Exatamente, ele levou três anos pra lançar material inédito desde "Noves Fora". Porém, esse 'jejum' parece ter sido extremamente significativo no resultado desse disco. Começa pelo fato de que, dessa vez, a gravadora era a gigante EMI (o disco foi gravado no Rio de Janeiro). Vale lembrar que com esse disco o Nei alcançou reconhecimento nacional e ganhou o antigo Prêmiao Sharp (hoje Prêmio TIM) de Revelação Pop/Rock. Difícil vai ser sintetizar tudo que dá pra falar dele. Mas vamos lá.


"Carecas..." é bem mais mais engajado que os dois discos anteriores. Tem uma veia política bem mais saltada, cheio de ironias, metáforas pra situação do país, um retrato crítico/poético da Era Sarney, mas também com um 'quesinho' deprê, a típica desesperança do fim dos anos 80, porém uma novidade no trabalho do dele. É um disco mais pessimista, digamos assim. Mostra o lado cronista político do Nei.

Em termos de som, ele é bem mais rock, com certeza. Não a toa, a galera do Engenheiros do Havaí participa de uma faixa (a faixa título, aliás), os caras tinham acabado de lançar seu segundo disco, "A Revolta dos Dândis" (que a Ju vai comentar aqui em breve), já com Licks nas guitarras, e a parceria entre eles foi ótima pro resultado de "Carecas...". Também passa por temas latinos, blues, jazz, típicos terrenos em que Nei pisa. Além de um novo tipo de experimentalismo harmônico, ele abusa de dissonâncias e harmonias que não se resolvem, estruturas não convencionais, recortes, letra 'declamada', enfim... Piração total. Contrastando com isso, o disco começa bem suave, com pop simples, bem arranjado, melodias lindas, começando por:

1. Rio by Night
Som bem suave, pop bem harmônico. Os arranjos são de Nei e banda. O destaque fica nas belas viradas e nos vocais dobrados. Me lembra bastante o pop bem trabalhado do Men at Work. A letra, em contraste, é bem engajada, toda cheia de referências as situações de desordem e letargia política do país ("E mais dia, menos dia, tudo se cria, tudo se perde, ninguém se espanta"), um tanto irônica, também. Os temas políticos vão sondar praticamente o disco todo.

2. Deixa o Bicho
Mais um pop extremamente melódico, com o refrão mais bonito do disco. A melodia da voz é realmente linda, e muito bem complementada pelos riffs de guitarra. Os teclados e baixão marcado, cheio de slaps, compõe a harmonia simples mas belíssima. Um solo de teclados é a cereja do bolo. Não perde nada pra clássicos do pop como Supertramp ou Tears for Fears. Os arranjos são do baixista Renato Mujeiko e a letra é de Nei e Gessinger, e me faz pensar em algo como o desejo de libertação, a fuga dos padrões comportamentais, a desilusão no mundo globalizado e na mídia, etc ("Minha gata não insista, Disneylândias não vão te levar pro céu").


3. Verão em Calcutá
Essa é mais swingadinha, mais 'veranesca', e os arranjos também são do baixista. Lembra até uma coisa meio country, com riffs de guitarra havaiana (slide). Também tem uma atmosfera mais pop, com apenas uma quebra de célula rítmica, no refrão, que faz toda a diferença. A letra compõe os temas musicais nostálgicos, com um clima mais melancólico, de desilusão mesmo. O refrão "C'mon baby, vamos passar bom verão em Calcutá, ao som do mar", parece um desejo de fuga, de sair daquela situação em que se encontra a política e a cultura brasileira, alienada de si mesma e da sua condição. Agora, não me pergunte por que Calcutá, se nem mar tem lá...

4. Maracujás
Uma verdadeira brisa, a letra dessa música. Na verdade me parece mais uma cena de completa apatia, inação, tédio. As nuvens de maracujá são como um calmante alienador, um sedativo pra "esse tédio moribundo, esse nó no mundo real". A letra é de Nei e Licks com arranjos de Licks. Começa com um sax bem típico do pop oitentista, e se desenvolve num piano a la Elton John, numa melodia suave de teclados e violão, guitarra tímida, sax sempre presente. Quebrando o clima pop, um único acorde dissonante, que se resolve  no verso "Maracujá...".

5. Junky
Ai começa a experimentação mais aguda do disco. A letra reflete bem a desesperança do junky, sua apatia, seus viagens entorpecidas. Mais uma com tema pessimista, e bem mais deprê. Totalmente experimental, uma quebra estética total com as faixas anteriores. Violão martelado, acordes dissonantes, com uma presença muito maior do baixo e suas melodias. Não coincidentemente a letra é de Nei com arranjos também de Mujeiko. A voz tem um reverb que dá à canção um sentimento de solidão imensa.


6. Schultznietsin is Down
A letra tem uma palavra em alemão, o suficiente pra tornar tudo mais dark, além de referências claras à "ameaça atômica", e fecha o ciclo de canções pessimistas, soturnas, down. Com arranjos de Dudu Trentin (teclados), esse som é o mais sombrio do disco. Trentin (que já tocou com Pepeu Gomes, Fagner, Zélia Duncan, entre outros) capricha nos teclados, usa timbres bem melancólicos, etéreos, que lembram bastante as bandas de darkwave da época, do gothic rock e afins. O melhor é o 'mambo' incidental em "Somos cucarachas e baratas sobreviverão".

7. Carecas da Jamaica
A parceria com os Engenheiros do Havaí fica clara na estética da faixa, que é basicamente a fórmula inicial dos próprios Engenheiros e de várias bandas nacionais e internacionais da época, como o The Police e os Paralamas do Sucesso, que se resume em misturar reggae, ska, e ritmos relativos, ao rock cru, 4/4 marcadão, mais pro lado do punk. Fórmula perfeitamente reproduzida nesse som. Os arranjos e o instrumental todo é de Licks e dos Engenheiros. A letra, claro, é a mais engajada, anti-facista, pró-minorias, anti-mídia, pró-revolução, escrita por Licks e Nei. Os caras ate tocaram esse som juntos. Assista aqui. Tá se perguntando por que "Carecas da Jamaica"? Presta atenção nas cores da bandeira gaúcha. ;-)

8. Declaração
Uma espécie de blues bem experimental, bem dissonante, com guitarras sobressaindo (os arranjos são do Licks). O mais interessante é que o vocal aqui começa meio que 'declamando' a letra, muda um pouco na segunda passagem, a terceira faz cantando e termina a quarta cantando e declamando. Simplesmente genial, em termos de experimento. A letra (bem intimista) é na verdade um poema do escritor Nei Duclós (segundo comentário dele mesmo aqui no Blog! Que honra!) e foi musicada pelo Mutuca, a quem Nei se refere diretamente no disco seguinte (ainda falaremos dele).

9. Dirá, Dirás
Mais uma crítica bem construída do momento político do país ("Restos de desejo, dinheiro, jogo de espelhos, Sobras de um almoço de urubu") mas que também cai numa tentativa de fuga ("A alma beat, em bytes, invites me, a revisitar highways"). Levadinha bem reggae, suave, com baixão bem dinâmico. Também tem uma mudança de andamento bem interessante, que transforma esse reggae em algo bem mais pop, mantendo as belas melodias de guitarras e teclados. O bacana é que essa transformação no andamento é toda a magia do som, dá uma dinâmica bem interessante. Um trombone compõe a harmonia.

10. Refrão
Blues meio jazzy, bem característico, bem 'óbvio'. O piano, claro, comanda o som, além dos solinhos de guitarra. É na letra que está o brilhantismo da faixa. Ironiza o próprio ato de compor uma canção, de "escrever refrão". É simplesmente foda. E o refrão então? O melhor de tudo. Metalinguagem pura. Além de ter recortes de conversas da 'galera' da banda e amigos. A faixa mais divertida do disco, e talvez a única.


11. Toda forma de poder
Minha faixa favorita do disco. Tudo bem que não é uma canção do Nei, mas é uma senhora composição do Humberto Gessinger, que o Nei teve a brilhante ideia de interpretar. E o fez de forma ainda mais brilhante. Com apenas o violão e a voz, ele ressignificou letra e melodia, deu ares melancólicos a canção raivosa gravada pelos Engenheiros do Havaí no disco "Longe Demais das Capitais", de 1986. Lindo demais. A faixa que me chamou atenção pro trabalho do Nei e pro "Carecas...". Me fisgou de uma forma inexplicável. Faça o teste você mesmo, ouça a versão original aqui e a interpretação do Nei aqui. É ou não é uma releitura incrível? A letra vou deixar pra Ju comentar. ;-)

12. Berlim - Bom Fim
Um som bem new wave, bem rock, guitarra pesada, agressiva. Tem também um quê de tango pairando ali, um violino bem choradinho, uma piano que bem poderia ter sido tirado de Gardel ou Piazzola. Tudo isso num clima bem urbano, o que casa muito bem com a letra, que relaciona a capital alemã ao bairro do Bom Fim, em Porto Alegre, berço musical de Nei (ele morou ali) e ponto de referência da vida noturna na capital gaúcha. Outro morador ilustre é o psicodélico Flávio Basso, o Júpiter Maçã.

                                                                   (Nei e Gessinger)

Bom, no geral, é isso. Daria pra fazer mais dezenas de comentários, mas ai fica foda né, tanto pra escrever quanto pra ler, (rs). O "Carecas..." é meu disco favorito porque criei uma relação afetiva com ele, foi o primeiro que eu ouvi na íntegra, o primeiro a me despertar pro som do Nei, e o fato mais relevante de todos, eu comprei essa bolacha por 100 pilas na minha primeira visita a Porto Alegre. Foi uma felicidade imensa encontrar essa joia ali na feirinha de discos de vinil do mercado central.

Como sempre, os títulos das músicas são links pras letras. O disco todo você pode ouvir no link abaixo. Espero que estejam gostando dos comentários sobres a discografia do Nei, eu to adorando fazer isso. No próximo post, o quarto e mais sombrio disco da carreira dele, "Hein?!" de 1988. Valeu, e até já!

Disco na íntegra:
http://www.youtube.com/watch?v=4qKw96MjVCM
(não sei por que, mas o Blogger não me permitiu colocar o vídeo direto aqui...)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Nirvana I - Bleach (1989)


   Não, eu não conheci Nirvana “antes do Nevermind”. Mas conheci logo depois do seu lançamento, lá pelos idos de 1992. O suficiente para acompanhar de perto a revolução em que acabou se tornando.
   No entanto, a primeira lembrança mais forte que tenho da banda é o show que fizeram no Hollywood Rock, em 1993. Eu não estava lá, mas acompanhei tudo pela televisão, ou melhor, acompanhei o que a Globo exibiu. Surpreendentemente, a emissora, que estava transmitindo ao vivo, não fez qualquer intervenção quando Kurt Cobain cuspiu nas câmeras, arriou as calças, e no final, de vestido de renda preta, visivelmente sem condições de ficar em pé, termina o show “sem mais nem menos” e sai, praticamente rastejando.
   Só 3 caras e um #putasom (como diz o Salinas). Atitudes subversivas, críticas contra o sistema, transgressão de gênero, feminismo, pose de anti herói, rock star ao contrário. E baixista e baterista “segurando legal” enquanto o Kurt pirava. Tudo o que eu precisava para me apaixonar de vez pela banda, pelo som, pela atitude, pelo visual.
    Tenho ainda trechos desse show, que gravei em fita VHS. Há muito tempo não assistia, mas nessas férias a nostalgia me pegou e fui tirar a poeira do vídeo cassete. Rever o show foi inspirador para voltar à discografia da banda, e, daí o pontapé inicial para criar o blog.
    Se ainda não viu esse show, há trechos dele no documentário Live! Tonight! Sold Out!! que é bem legal. Mas também está na íntegra no youtube. É basicamente uma hora e meia de porrada. Vale muito a pena. É o Nirvana no auge. E ainda tem a incrível canja do Flea (do Red Hot Chilli Peppers) tocando trompete!
    Mas, enfim, me coloquei a tarefa de comentar a discografia dos caras, e vamos a ela:


    O primeiro disco, Bleach, foi lançado em 1989, pela Sub Pop, gravadora independente de Seattle, terra dos caras. Tanto a gravadora, como a cidade ficaram conhecidos, na época, como o berço do chamado estilo “grunge”.
   A álbum traz um rock n’roll direto, sem firulas, faixas curtas no melhor estilo Ramones (one-two-three-four!), power chords, guitarras sujas e pesadas, vocal rasgado, letras minimalistas e sombrias sobre uma juventude sem esperança. Bem ao estilo da Sub Pop e do produtor Jack Endino, que depois desse estouro ficou mundialmente famoso. Foi o álbum mais vendido da gravadora e a consagração do grunge.  
   O primeiro fato que chama atenção: olhe para a foto da capa. Peraí… 1, 2, 3, 4? Como assim, 4 pessoas? Pois é. Existe ali um guitarrista a mais, Jason Everman, que só aparece na foto e nos créditos como guitarrista, mas não tocou em nenhuma faixa. E o que ele fez? Ora, patrocinou a gravação do álbum, é claro!
   A formação ainda não tinha o Dave Grohl na bateria. Kurt Cobain (vocal e guitarra) e Krist Novoselic (baixo) já tocavam juntos a algum tempo e vinham procurando e testando vários bateristas, quando um amigo os apresentou a Chad Channing, que toca no álbum.
   Três faixas foram gravadas anteriormente, como uma demo, em janeiro de 1988, com com Dale Crover, do Melvins, na bateria. É possível perceber uma sutil diferença na gravação dessas faixas, que chegam a soar um pouco mais cruas. São elas:

a faixa 2: Floyd the Barber – 2:18
Pesada, sombria, com um baixo mais pesadão, lembrando um post-punk, e bateria bem marcada, mas com uma pegada meio pop. A letra fala sobre um seriado americano “Floyd the barber”. Nela, Kurt conta como foi torturado pelos personagens do programa ao procurar a tal barbearia do Floyd. Cômico, trágico, irônico, crítico.

a faixa 6: Paper Cuts – 4:06
A cara da Sub Pop, ou do que a Sub Pop procurava como identidade: pesadona, com guitarra bem suja e com muita distorção, bateria bem marcada, gritos e vocais rasgados. Microfonia e dissonâncias à lá Sonic Youth. Me lembra um pouco aquela história de que o Black Sabath queria que suas músicas provocassem medo nas pessoas, como num filme de terror. Essa música consegue um clima bem sombrio. Um pouco de Sister of Mercy com Led Zeppelin com guitarras muito pesadas.A letra fala de negligência. Descreve uma situação de total abandono, do ponto de vista da vítima. É tão cruel que é difícil definir se trata-se de um cachorro, ou uma criança.

Um pegada mais acelerada, um pouco mais Hardcore, mais parecido com o que o L7, que era da mesma gravadora, estava fazendo. Também me lembra bastante o Pixies, uma grande influência da banda. Talvez pela linha do baixo. Não sei bem. A letra, pra variar, é carregada de muita raiva, contra tudo e todos.
Essa faixa foi somente incluída no álbum em seu relançamento, em1992 (já em CD) pela Geffen Records, juntamente com

a faixa 12: Big Cheese – 3:42
Única composição parceria de Cobain e Novoselic no álbum, originalmente lançada como Lado B do Single Love Buzz, em novembro de 1988, mas já com Channing na bateria. Fala sobre chefe, escritório, esse tipo de coisa opressora e controladora. Todas as outras composições do álbum são de autoria de Kurt, exceto o lado A do Single em questão, uma cover, que entrou para o álbum como

Cover da banda Shocking Blue (compisição de Robbie van Leeuwen), que até antes de escrever esse post, eu apenas conhecia pela música Venus. Aliás musicão! Muito boa mesmo. Não é a toa que foi utilizada em diversos covers e samplers. Mas é aí que impressiona a genialidade do grupo ao realizar o cover. Como conseguiram se distanciar do original, acelerando, sujando e conferindo sua identidade à música, mas sem se perder da original. Não é a toa que no mês seguinte ao lançamento do single, já estavam em estúdio para gravar o álbum. Que se inicia pela

A faixa que abre Bleach traz a estrutura básica do Nirvana, baixão marcado, guitarra pesada com muita distorção, o tom irônico do vocal, que depois, mais rasgado, fica mais próximo do grito. Um grito contra todas as opressões, como a própria letra, um tanto desesperançosa - "If you wouldn't care I would like to leave / If you wouldn't mind I would like to breathe - Se você não ligar, eu gostaria de sair / Se você não se importar, eu gostaria de respirar". E um solinho pra arrematar.

Fácil, daquela melodia quase grudenta. Um hit. Já se prevê aí o sucesso do disco posterior. Guitarrinhas um pouco mais limpas, vocal rasgado e limpo se alternando e a bateria, ora suave, quase jazzy, ora bem marcada. Apesar de todo o peso, a levada é bem pop, e a letra é ótima. Irônica e um tanto cômica, descreve uma situação muito real do cara que está apaixonado, mas precisa "entrar na fila" pra poder ficar com a garota.Uma delícia de música, com uma levada meio anos 70, como muitas bandas estavam procurando fazer.Por aqui, só pegou mesmo a versão do acústico.

Uma porrada! Gosto demais dessa. Adoro os vocais gritados. O desespero de uma juventude desacreditada e sem perspectiva. O riff é contagiante, repetitivo sem ser chato. A bateria mais complexa, tem algumas quebradas no tempo. Prestei mais atenção nessa músicas quando ouvi a  versão ao vivo no From the Muddy Banks of the Wishkah - pretendo comentá-lo aqui ainda. Traz novamente o estilo Pixies. Frases repetidas, letra minimalista, refrão gritado. Ironia na letra: You're in high school again! / No Recess! - Você está no colégio de novo! / Sem férias.

Uma pegadinha mais punk. A descoberta da “fórmula” que consagrou o Nirvana: canta–para–canta, as pausas bem colocadas da bateria e os bends sublinhando o vocal. (o famoso "uém" do Smells Like Teen Spirits).A letra fala sobre crescer e tal, de uma forma bem pessimista... parece ser sobre o próprio Kurt.

Nada diferente, porrada do começo ao fim. Viradas de bateria muito bem colocadas e guitarras bem pesadas. Letra que fala do confronto de gerações, brigas com os pais, busca pela independência, de forma bem minimalista, já consolidada aqui como característica do Kurt.

Bateria nervosa, guitarra bem pesada. Mas sem o clima sombrio. É um pouco mais feliz, mas aquela felicidade irônica, que o Kurt soube expressar como ninguém. Fala de relacionamentos convencionais. Casais que vivem para manter a aparência e jamais são capazes de demonstrar o que realmente sentem. Seja ódio, seja amor.

Mantém a mesma pegada, bateria e linha de baixo bem marcados, riff de guitarra pesado e minimalista. Aqui também tem aquela pausa característica, que dá toda uma dinâmica especial para a música. A letra é uma crítica ao machismo, coisa que Kurt sempre combateu, inclusive se engajando em questões feministas e pró-aborto.

Boa demais. O baixo pesadão, marcado, sombrio dá o clima. Um tom melancólico que acompanhou a banda desde o início, e daí pra frente. Aquele tom meio gótico, meio Black Sabbath dando o clima de filme de terror. A letra, ao meu ver, fala sobre se iludir, acreditar em coisas que dizem para você fazer, mas que não trazem sentido para sua vida.

   Encerra muito bem esse álbum, que é um prenúncio da revolução e o sucesso da banda, pois já tá tudo lá, o baixão marcado, as guitarras bem pesadas e sujas, riffs dissonantes e minimalistas, bateria segurando a onda enquanto o guitarrista pira, vocais ora limpos, ora rasgados, ora gritados. É a essência do Nirvana, mas, claro, não é total novidade. Já havia um pouco de tudo isso em Pixies, Sonic Youth, Mudhoney, Melvins... Mas o Nirvana tinha um “q” diferente. Foi capaz de misturar tudo o que essas bandas traziam, adicionando algo de The SmithereensCelticFrost a essa fórmula, conforme disse Krist Novoselic em alguma entrevista.
   Bem, parece que Kurt não gostava muito desse álbum, que não respeitava muito as músicas. Parece que escreveu tudo de última hora, irritado com a pressão da gravadora, e que essa estética mais grunge era coisa do Jack Endino, que eles não tavam muito nessa pegada.
   Verdade ou não, a fórmula deu certo, e se manteve no absurdo sucesso do já consagrado clássico segundo álbum, Nevermind. Que será comentado em breve neste mesmo bat-canal.
     
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