sábado, 1 de agosto de 2015

Bad Religion 10 - Stranger Than Fiction (1994)


Nota 9,5
Crise interna. Sucesso de “Recipe For Hate”. Entrada no mainstream. Contrato com gravadora major (Atlantic Records). Brett Gurewitz afundado no crack. Sua gravadora Epitaph ganhando milhões com o sucesso do Offspring. Punk Rock no topo das paradas e da MTV. 1994 - essa é a uma sucinta descrição do cenário que envolveu a concepção e o lançamento de “Stranger Than Fiction”, 8º disco do Bad Religion, tido por muitos como o melhor da carreira da banda.

Após finalmente romper a barreira do underground e atingir pela primeira vez as paradas, o Bad Religion estava entre a cruz e a espada: o racha fortíssimo entre os principais compositores e “cabeças” da banda, o vocalista Greg Graffin e o guitarrista Brett Gurewitz, principalmente por conta da traumática saída do grupo da gravadora Epitaph (leia mais sobre isso no post anterior), estava ainda maior e as discussões acerca do disco novo começaram já na escolha do repertório, com Brett exigindo que a banda regravasse o hit “21st Century (Digital Boy)”, lançada no disco “Against The Grain”, em 1990.

Cara de poucos amigos  na sessão de fotos de STF
“Nós brigamos muito”, admitiu mais tarde, em entrevistas, o baixista Jay Bentley. “Nós quatro queríamos que ‘News From the Front’ entrasse no tracklist oficial do disco, mas Brett insistiu que fosse a ‘Digital Boy’ novamente.” Como o guitarrista era o compositor das duas canções, a solução foi lançar duas versões de “Stranger Than Ficton”, sendo que “Digital Boy” permaneceu no tracklist oficial da versão americana do disco e a “News...” entrou como bônus (junto com “Markovian Process”) na versão lançada no resto do mundo.

E se os ânimos estavam acirrados no “social”, no setor criativo, o Bad Religion estava “voando baixo”, literalmente dando aula de como fazer Punk Rock melódico e contestador, com letras inteligentes. Diferentemente do direcionamento mais alternativo e experimental que adotaram em “Recipe for Hate”, “Stranger Than Fiction” ficou marcado como um raríssimo caso de “se vender ao contrário”, pois a banda, que pela 1ª vez estava em gravadora major multinacional, figurando no mainstream, com distribuição mundial e acesso às rádios e MTV, musicalmente fez um dos discos mais Punk de sua carreira! A própria gravadora Atlantic não ficou muito feliz com o resultado “não-tão-comercial” das músicas apresentadas pela banda e mostrou não saber trabalhar muito bem com um artista “musicalmente livre”.

Capa do single 'Digital Boy'
A principal “mancada” dada pela gravadora foi a escolha errada dos singles. Enquanto a principal rádio de rock de Los Angeles na época, a KROQ, percebeu o enorme apelo comercial da semi-balada “Infected” e começou a rolar a música por conta própria na programação, “sem incentivo” (ou jabá) da Atlantic, a gravadora absurdamente preferiu lançar “21st Century (Digital Boy)” como single do disco, fazendo com que o disco, embora ainda com boas vendagens, chegasse apenas ao número 87 do Top 200 da Billboard, na época do lançamento, e a disco de ouro (500 mil cópias vendidas nos EUA) somente quatro anos depois, em 1998.

Assim, após 5 semanas de gravação, entre abril e maio de 94, no estúdio Rumbo Recorders, em Los Angeles, sendo um disco bem punk” e “pouco comercial”, e lançado por uma gravadora major de alcance mundial, “Stranger Than Ficton” veio à luz no dia 6 de setembro de 1994, bem no meio do turbilhão que o Punk Rock Californiano havia entrado meses antes, com o sucesso mundial de Green Day e Offspring, e seus magistrais “Dookie” e “Smash”, respectivamente. De fato, mesmo com as “mancadas”, “STF” fez justiça ao Bad Religion e colocou a banda em seu devido lugar junto aos “picas do rolê” da época, fazendo-os serem reconhecidos como os “pais/criadores” do estilo que agora estava no topo.

O "hype" na revista RIP, já sem Brett
De bolsos cheios devido ao contrato com a Atlantic, o Bad Religion chamou o renomado Andy Wallace para produzir “STF”. O produtor, que já havia trabalhado com Slayer, Sepultura e Aerosmith, além de ter mixado o clássico “Nevermind”, do Nirvana, fez um bom trabalho ao deixar o som de “STF” incrivelmente audível, com uma nitidez espantosa e os instrumentos “na cara”. O único porém foi que, como em qualquer disco muito produzido, as guitarras acabaram diluídas pelo peso estrondoso do baixo, soando limpas e pouco distorcidas. Esse é o único motivo do disco receber, de mim, a nota 9,5 e não 10...

Ao todo, 19 faixas foram gravadas para “STF”, sendo que 15 entraram no lançamento americano (totalizando 38 minutos), 17 no lançamento mundial (com cerca de 42 minutos, como a versão brasileira), 18 no lançamento japonês, sobrando um único som usado como “lado B” de single (“Mediocrity”). A divisão na composição foi novamente equilibrada, com Greg compondo 10 músicas e Brett as outras 9. Jay Bentley e o baterista Bobby Schayer também levaram créditos de co-autores (junto com Brett) em “News From the Front”, fazendo com que, novamente, o BR tivesse outro disco sem contribuições do guitarrista Greg Hetson.

Mr. Brett orgulhoso de sua criação
E foi justamente no “departamento guitarrístico” que o Bad Religion acabou sofrendo a maior baixa por conta das tretas durante o período que antecedeu o lançamento de Stranger Than Fiction. Apesar de ter se afundado novamente no vício do crack, Brett Gurewitz agora era um bem sucedido empresário milionário com sua gravadora Epitaph, graças às estratosféricas vendas de “Smash”, do Offspring, que em 94 atingiu a casa de 5 milhões de cópias vendidas. Da noite para o dia, em pleno período de produção do disco de sua banda (e pela primeira vez sem o seu controle da mesa de som), ele estava tendo que se virar para conseguir estruturar a sua “gravadora independente” para conseguir atender à demanda milionária do disco do Offspring.

Apesar de se garantir no business, mandando bem com a enorme demanda do Offpring e aproveitando o embalo para fazer várias outras bandas de seu selo despontar para o sucesso (como Rancid, NOFX, Pennywise...), Brett acabou espanando no lado do Bad Religion, com rusgas fortíssimas com Greg Graffin e, principalmente, com Jay Bentley, de quem também era “patrão” na Epitaph (já que o baixista foi por anos um dos poucos funcionários da gravadora), saindo da banda que fundou antes mesmo do início da tour, duas semanas antes do lançamento de “Stranger Than Fiction”, considerado por ele mesmo, seu melhor trabalho no Bad Religion.

Seu substituto foi Brian Baker, famoso na cena Hardcore de Washington por ter tocado no MinorThreat e no Dag Nasty. Ele estreou no Bad Religion substituindo Brett no dia 20 de agosto de 1994, no Bizarre Festival, na Alemanha, (também) antes do lançamento de “STF”.

Encarte completo de STF (clique para ampliar)
Voltando ao disco, nem mesmo a capa escapou ilesa das tretas entre os integrantes. Por não concordarem com nenhuma arte, a capa daquele que acabou sendo considerado o melhor disco do Bad Religion foi simplesmente uma foto dos integrantes em preto e branco, com as caras mais amarradas possíveis, diga-se de passagem. No encarte, aproveitando a veia de cientista de Graffin, foram colocadas fotos da revista Popular Science.

E chega de história. Vamos para a Música! :)
Uma das capas do single de STF
Como disse antes, “Stranger Than Fiction” é uma aula de Punk Rock melódico, com o Bad Religion no pico de seu ápice criativo e sem a mínima intenção de amaciar o som para figurar nas paradas de sucesso. “Incomplete” resume bem esse espírito, abrindo o play com um chute no peito, onde um feroz Greg Graffin grita uma rebelde letra com raiva jamais vista e guitarras que, apesar de mais limpas, rasgam os falantes como nunca! Wayne Kramer, do MC5, tocou o barulhento solo de guitarra nesta faixa, composta por Brett e que também ganhou um clipe como 4º single do disco.

Assista o clipe de “Incomplete”:

A segunda música é outro chute no peito, na forma de “Leave Mine to Me”, um Punk Rock certeiro e bem amarrado de Greg Graffin, com um letra que aponta muitos dedos na (sua) cara! Já na faixa-título, que vem em seguida, Brett admitiu que tentou soar como Elvis Costello como pano de fundo para uma letra sobre escritores tidos como pessimistas, como, por exemplo, Jack Kerouac. “STF”, a faixa, acabou sendo o 2º single do álbum, e ganhou um clipe dirigido novamente por Gore Verbinski, que já havia trabalhado no vídeo de “American Jesus”, do disco anterior.

Assista o clipe de “Stranger Than Fiction”:

Na faixa 4 temos a reta e direta “Tiny Voices”, de Graffin, com uma letra inspirada nas pessoas mortas nos conflitos da Bósnia, que aconteceu na época.

Mais uma capa do single STF
Em seguida é a vez da melhor do disco, a punker empolgante “The Handshake”, que inexplicavelmente não se tornou single! Sua levada tradicional de Punk Rock, nas bases daquela desenvolvida e imortalizada por Tommy Ramone, dá a tônica da música, que te convida a pogar, paradoxalmente, junto a uma letra bem pessimista sobre relações pessoais. Canção típica de Greg Graffin.

Better Off Dead” segue na faixa 6, e pode ser tida como uma “música-modelo” do que entende-se por “Hardcore Melódico”! Harmonicamente bem estruturada, sua letra, composta por Brett, fala sobre “o peso de carregar o mundo nas costas”, possivelmente inspirada no caos pessoal que o guitarrista estava vivendo na época.

E a 7ª faixa é aquela que faz valer você ter comprado o play! “Infected”, a semi-balada do Bad Religion sobre uma doentia relação de amor e ódio de um casal, tocou muito nas rádios rock e seu clipe (com um tosco roteiro imposto pela gravadora que não agradou à banda) rachou de passar nas MTVs!

Assista o clipe de “Infected”:

Composta por Brett, a música começa de mansinho e cresce numa levada, que pode ser curtida tanto “numa boa” quanto “pulando”, até atingir o ápice no pegajoso refrão “You and me have a disease...”. Foi nesse som que a Atlantic cometeu seu maior erro na estratégia de divulgação do disco, escolhendo-o para single somente depois de tentar (e falhar) com “Digital Boy” e “STF”. O sucesso foi tanto que a gravadora acabou lançando 4 versões diferentes do single, incluindo uma com um EP ao vivo bem interessante.

Cenas do BR ao vivo na STF Tour 94-95
O 8º som, “Television”, ganha mais destaque pela participação de Tim Armstrong, do então emergente Rancid, dividindo os vocais com Graffin, do que pela música em si. Composta por Brett em parceria com Johnette Napolitano, do Concrete Blonde (ela já havia gravado backing vocals com o BR no disco anterior, em “Struck a Nerve”), a letra divaga sobre como a TV é a religião do mundo moderno, sendo que a palavra “television” é repetida várias vezes seguidas, como um coro de “Aleluia”.

Em seguida, um ahh forget it introduz “Individual”, que é mais um dos Punk Rocks rápidos e diretos de Greg Graffin. “Horray For Me...” vem na 10ª posição do tracklist, e é mais um desabafo de Brett sobre viver a vida no máximo, com todos os encargos que isso te traz. O outro guitarrista do BR, Greg Hetson, foi contra a inclusão da música por causa da letra, mas ela acabou entrando porque os demais gostavam da música em si.

Na faixa 11 há a simpática “Slumber”, uma canção de ninar que Greg Graffin fez para seu primeiro filho, que ficou bem bacana com a estética sonora do BR. Em seguida, Mr. Brett acorda o ouvinte do sono com a cacetada “Marked”, um hardcore de menos de 2 minutos, com letra sobre o que o guitarrista considera ser seu “conceito de espiritualidade”. Os backing vocals tiveram participação de Jim Lindberg, do Pennywise.

Ainda sisudos na contracapa do single de STF
Inner Logic” e “What it is” são duas que poderiam ser consideradas meros fillers, mas ainda assim trazem uma empolgante levada Punker. E, fechando a versão americana do disco, há a controversa e desnecessária regravação de “21st Century (Digital Boy)”, imposta por Brett e, certamente (mas não confirmado em nenhum lugar...rs), pela gravadora Atlantic. A música não tem o punch, nem a velocidade da versão original, mas ajudou apresentar um pouco do que foi o BR do fim dos Anos 80 ao público mainstream, que agora “tinha acesso” e “consumia” a banda. Foi o 1º single do disco, obviamente ganhou um rodado clipe!

Assista o clipe de “21st Century (Digital Boy)”:

Seguindo na versão “mundial” do disco, a vigorosa “News From the Front” é um hardcore com um convidativo refrão “sing-along” e uma letra sobre a vítimas da AIDS. Fechando o disco, há a mediana “Markovian Process”, de Greg Graffin, trazendo uma típica letra (para o BR) com elementos do alter ego cientista do cantor. Na versão japonesa, o ouvinte ainda encontra a também mediana “Leaders and Followers”, composta por Greg, passando a régua na bolacha.
Capas, capas, capas...
Além de todas as 19 músicas trabalhadas em “Stranger Than Fiction”, outras 3 foram compostas, mas acabaram descartadas pela banda: “The Truth”, “Fuck Up Children” e “Fanatics”. As demos delas e de outros 7 sons que entraram no disco podem ser conferidas abaixo:
 
Rock Brigade de abril de 1995
A relevância de “Stranger Than Fiction” foi tamanha que o disco foi o eleito “número um” na lista dos 10 melhores discos com guitarra de 94 da revista Guitar World, com “Smash” do Offspring ficando em 2º. O play também entrou em muitas outras listas de “Melhores do Ano” de 1994, sendo inclusive bem resenhado aqui no Brasil, na época do lançamento.

Pesquisando em meu acervo, encontrei uma resenha de "STF" que saiu na edição de abril de 1995 da quase finada revista Rock Brigade, que resume muito bem tudo que está escrito acima. Ela pode ser lida na íntegra logo abaixo: 

“Os baluartes do punk rock californiano estão mais vivos que nunca. Ouvindo o trabalho do Bad Religion, que está na estrada há mais de uma década, dá pra sacar a fonte onde beberam bandas como Green Day e Offspring. Os refrões são irados e as letras transparecem a inquietude mordaz dos músicos. São 17 faixas com uma média de dois minutos (ou menos) de duração onde a banda demonstra ter perdido um pouco de seu ‘punch’ inicial, mas continua certeira como sempre, especialmente na faixa The Handshake, um convite à poga!” Nota 8, por Fernando Souza Filho.

Escute “Stranger Than Fiction” na íntegra:

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Nei Lisboa 9: "Translucidação", 2006

E aeee galera? Saudades de mim? Saudades do Nei? Eu também. rs

Chegamos ao nono disco do Nei Lisboa, "Translucidação", gravado em Porto Alegre nos estúdios da Tec Áudio e lançado em 2006. Estão com Nei o parceiro antigo Paulinho Supekovia na guitarra, Mano Gomes na bateria, Lucas Esvael no baixo, Boca Freire no baixo acústico, Luiz Mauro Filho nos teclados e Marcelo Piraíno, que faz participações nos clarinetes.


Aqui tem uma entrevista do Nei falando sobre sua carreira literária e sobre o lançamento desse disco:


O fato de ter demorado pra escrever sobre esse disco talvez (e apenas talvez) se dê pelo fato de que era  estranho pra mim, no sentido de que ouvi poucas vezes até começar o blog. E querendo ou não, não é dos meus favoritos ("Carecas..." e "Hein?!"). Então fiquei, por alguns dias sem entender o disco. Soa muito bem, é bonito, bem gravado, tem a poesia maravilhosa do Nei que eu adoro, mas de certa forma, me parece muito com o lado romântico de "Relógios de Sol" (poucas faixas fogem ao tema) e remete mais ainda aos timbres usados em "Cena Beatnik", com algumas exceções curiosas. É como um continuação desses discos anteriores, o mais flat, pensando em contorno emocional. Nei ainda diversifica nos estilos, tocando do funk ao jazz, passando pelo samba e muito, muito pop rock. Além das versões de "Muito", do Caetano Veloso, e "The Importance of Being Idle", do Oasis.

Bom, vamos às faixas:

1. Translucidação
Curiosamente a faixa começa com o som de uma porta fechando. Nei ataca no violão, uma batida bem malandra, e depois dessa intro entra a banda. O arranjo é simples, bonito, não tem nada de espetacular, mas cabe bem no sentimento da música. Os teclados dominam praticamente a música toda. A faixa título tem uma letra que parece meio autobiográfica, ou auto referência, me parece que é o próprio Nei falando sua passagem no tempo e no espaço. Típico desse compositor genial. "De tudo que aparente ser, no fundo, mais profano e mais rotundamente humano que a razão". Foda demais, né não?

2. Côte d'azur
Essa poderia muito bem ser uma canção do Simply Red. Belos arranjos, um pop muito bem feito, bem arranjado, cadências com intervalos inesperados. Muito lindo. Os violinos e os backings contrapõe bem a marcação mais forte do baixo e do piano. A primeira romântica do disco, que fala direto com a pessoa amada, enaltece, relembra momentos, se declara. Ele diz que o mar para pra ver a pessoa amada passar. Cotê d'azur é o nome que se dá uma região do litoral sul da França.

3. Bela
A segunda romântica, já vem na sequência. Parece até que são uma música só, divida em dois momentos, duas mensagens correlatas. Se foi proposital, foi bem sacado. Mas... o título já diz tudo sobre a mensagem. Sobra romantismo no Nei dos anos 2000, de fato (rs). Acho que uma das canções menos interessantes do disco, na verdade. Letra e música me soam comerciais demais pro padrão Lisboa de sonoridade. Bom, avisei que entrei em estranhei o disco... rs.

4. Confissão
Uma melodia linda tocada ao violão de aço é acompanhada por um baixo com um timbre sensacional, logo no início. No refrão entra a guitarra e os synths, harmonizando. Mesmo sem bateria, a música alcança um nível de dinâmica no seu contorno emocional muito além das outras faixas. O mesmo pra voz do Nei, que entra sempre com a exatidão poética em cada nota, com a força certa, o sentimento exato. Mais uma letra inspirada do Lisboa, extremamente positiva, esperançosa. Daquele tipo de mensagem que dá vontade de viver, de fazer o que a gente gosta, acreditar que amanhã vai ser melhor que hoje, enfim. Sabedoria pura.

5. Clichê 
Eu juro que eu ouvi um pagodinho aqui nessa faixa (rs). Tem uma sonoridade bem interessante, menos pé no chão, com bastante reverb, guitarra espacial, bastante synth. Lembra muito algumas coisas dos anos 80, com o acréscimo de que é Nei Lisboa em pleno 2006. Mais uma romântica, bem mais sensual que as outras, tem uma malandragem, um swing singular. "Corres da minha porta, somes da minha rua, mas estás sempre pronta pra mim, juras que não suportas, cospes na minha cara, mas estás sempre nua no fim". Pois é.

6. Em Pleno Carnaval 
Essa eu realmente gosto muito, por vários motivos. Primeiro porque tem uma letra linda e toda parnasiana, tenho até impressão de que muitas palavras estão ali muito mais pela sonoridade e pela poética que pelo sentido. Mas no trecho "Mas o que faz esse lugar vazio em pleno carnaval?" tudo se amarra. Brilhante. A música é uma das mais bem trabalhadas, com arranjos sensacionais, e o conjunto de crescendo até o terceiro verso é emocionante. Difícil definir estilo, eu diria que é um tipo de pop folclórico (rs), synths contrapondo com violão, baixo contrapondo com orquestrações de cordas, percussão que vai evoluindo, enfim. Sem dúvida uma das melhores faixas do disco.


7. Dois Meses
É claro que não faltaria um sambão. Esse é bem diferenciado,  tem um piano bem marcado e a percussão brilhantemente cheia de dinâmicas, formando a base geral da música. Entram nos solos: acordeão, tuba, guitarra e synths, que se unem pra finalizar a faixa com toda a força. Adorei essa sacada. Mais uma romântica. S2

8. Mundos Seus 
Uma canção mais dark e introspectiva. Gosto muito das guitarras cheias de processamento e do clima soturno dos synths, uma série de ruídos e sons soltos no espaço, criam uma atmosfera bem peculiar. A melodia principal é bem comum, mas foi bem arranjada com apoio do violão e do baixo. Gosto muito do vocal do Nei nesta faixa, em especial. A letra é tristonha também, um amor perdido, um passado apagado, uma lembrança longínqua.

9. Tropeço
Instrumental simples, composto apenas de piano e clarinete. Uma base bem bacana no piano, que lembram até algumas canções do Arnaldo Baptista, acompanhado suavemente pela voz do Nei. Não tem a letra mais genial do disco, mas é bacana. Uma mistura de declaração de amor e de loucura.

10. A Verdade não Me Ilude 
Finalmente um jazz! Claro que não poderia faltar, afinal faz parte da "tradição Lisboa" sempre gravar pelo menos um jazzinho maroto. E esse não deixa a desejar, tem tudo que um bom som do estilo tem, pianão bem marcado, cheio dos acordes esquisitos (leia-se "maravilhosos"), baixo dinâmico, e aquela bateria típica. A letra é uma das melhores, extremamente crítica, expõe as relações exploratórias entre artista e agenciador, entre criativo e indústria cultural. "De fato é muito interessante e musical esse seu novo jazz em fá bemol. Música é legal, mas devo também lembrar o aspecto pontual de que assinou esse contrato pelo qual lhe prometemos uma eterna juventude, em troca de você mostrar um pouco de atitude". E por ai vai. Genial demais, irônica, outra das minhas favoritas do disco.

11. The Importance of Being Idle
Essa me deixou surpreso. Um cover do Oasis? Como assim?... Pois é, uma baita versão, na verdade. Gostei muita da interpretação, esse início com gaitas de fole é demais. O mais interessante é que tem momentos que nem parece o Nei cantando. Bem diferente mesmo. Acho que valeu a experiência, apesar de destoar bastante do resto do disco. Bom, foi a impressão que eu tive... =X

12. Muito
Nei está aqui devolvendo a gentileza que Caetano fez ao gravar "Pra te lembrar", que ele havia lançado alguns anos antes, e foi trilha de cinema. Ele optou por algo bem simples, piano sem muitas firulas, e apostou na sua interpretação vocal, que ficou linda. No mais, nada novo. Valeu Cae!

13. Festa do Kafu S. 
Eu diria que a faixa que fecha o disco é a mais diferente do tema geral, a mais festiva (desculpe o trocadalho), bem mais swingada, mais pro funk, com batera e baixo pesados, guitarrinha só acompanhando, riffs com pedal wah-wah, tudo mais. Tudo a ver com a mensagem que o Nei quer passar, parece mesmo que ele tá no meio de uma festa, descrevendo cenas e pensamentos que ali se passam. Adorei o disco terminar assim pra cima. Ainda mais quando ouvi aquele clavinet dividindo os solos com o guitarra no fim. Foda!

Foi então depois de ouvir bastante "Translucidação" que me dei conta que de fato é uma espécie de fechamento da trilogia "Cena Beatink/Relógios de Sol/Translucidação". Doido isso, é como uma síntese daquilo que foi produzido nos discos anteriores. Ai sim eu percebi a importância desse álbum, consegui entender. Acho que no fim, até me surpreendeu. Me fez acreditar ainda mais que o Lisboa é um dos maiores compositores de música popular gaúcha e brasileira.

Vale lembrar também que em 2007 ele lançou "É Foch!", seu primeiro livro de crônicas. (esse aí do lado >>>)

No mais, é isso galera. No próximo post vou escrever sobre "A Vida Inteira", de 2013, disco que foi financiado via crowdfunding. Pois é, genial. Mas fica pra depois. Lembrando que os títulos da músicas são links pras letras. Até o próximo post. Valeu! o/

Ouça o disco na íntegra aqui:


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

EngHaw - 9° Simples de Coração

Olá, pessoas! (:


  
O disco “Simples de Coração” vem de um hiato de 2 anos desde o último lançado (quebrando pela primeira vez o ritmo de um disco lançado por ano), que marca o que muitos acreditam ser o “final da fase clássica” da banda.
Essa reinvenção pode ser atribuída ao fim dos Engenheiros do Hawaii, como era idealizado, com a saída traumática do guitarrista Augusto Moacir Licks, que envolveu inclusive briga judicial. Os novos Engenheiros contaram a partir daí com o novo guitarrista Ricardo Horn, amigo do vocalista da época da faculdade, e a chegada de Fernando Deluqui, que havia há pouco saído do RPM e depois de algumas jams com a banda foi convidado a ficar, e de Paulo Casarin, tecladista e acordeonista que tocou por 7 anos com o Pepeu Gomes.
O Power trio agora era um quinteto, porém, a formação seria temporária.


Esse álbum marca o início de uma fase muito mais experimental, cheia de regionalismo gaúcho – grande parte graças ao impacto do toque nada sutil do acordeon de Casarin. Produzido em L.A./USA por Greg Ladanyi, que buscava com o trabalho, recuperar a espontaneidade e o desapego ao perfeccionismo (daí o “Simples de Coração”), o álbum segue a mesma linha anterior dos trabalhos idealizados pelo Gessinger, a ideia de ser ouvido/sentido como uma canção única, uma história sendo contada, a história do início de uma grande nova era para a banda.

O álbum também ganhou uma versão em inglês, que não foi comercializada, mas que vazou (infelizmente em baixa qualidade) na internet - lógico.


Pra abrir, o título fala tudo. Bem vindo à nova Engenheiros do Hawaii!
Calma, riffs sobrepostos com a dupla de guitarras Horn/Deluqui, o vocal duplicado do Gessinger, e um final cerimonial com coro e sino.
“Se queres paz, te prepara para a guerra!
Se não queres nada, descansa em paz”

A deliciosa harmonia entre o acordeon e as guitarras, outra cara, outra coisa.
*Com direito a clipe e Humbertão contracenando em cenas quentes.. Ui!
  

Sem abrir mão do riff pesado no começo, cara de rock, misturado com arranjos mais delicados, e o acordeon, que à essa altura você já se acostumou e camuflou amorosamente lá no meio.
Essa é aquela música pra você que tentou a vida toda ser completo, fazer tudo certinho, tentando ser perfeito e perdendo, ou se desfazendo, de tudo aquilo que não saiu como você achava que seria o certo.
“Já perdemos muito tempo brincando de perfeição
Esquecemos o que somos, simples de coração.”

Levada suave, “O fim é puro ritmo, o ultimo suspiro é purificação”.
Sorte ou destino? Eis a questão... Vale a reflexão.

Perspectiva? Alienação? Marketing? Te desafio a definir.
Qual sua ideia de paraíso? Nada que o sistema não possa lhe prometer, nada a que você também já não esteja conectado, inclusive, é tudo uma questão de direção.
Grande clássico!

Eu já devo ter dito em algum outro disco, mas torno a dizer, esse cara fala como ninguém sobre o amor.
“Não, eu não olhava pra você por acaso, eu sempre quis você.
Se eu não me fiz entender
Não foi por mal, não foi por nada, nada foi por acaso.”

A “evolução” de “Alívio imediato”. Ilex Paraguariensis é o nome da erva-mate com a qual se faz o tão adorado pelos gaúchos: chimarrão.
A velha e linda mania que essa banda tem de reinventar as músicas.

Maltz no vocal principal e Gessinger no backing, uma energia que me lembra “sopa de letrinhas”.
Outra canção de amor totalmente fora do comum, enigmática e desafortunada.

Cara de blues, backing vocal feminino em inglês, conflito entre lados, batalhas mal explicadas...
“Tudo se resume, se presume, se reduz
E o principal fica fora do resumo”
Como nessa matéria, por exemplo.

Um rock com riffs nervosos, vocal com reverb, o retrato da donzelinha esperando na janela pelo príncipe que nunca chegou, chorando pelas desilusões que ela mesma criou, da responsabilidade que era dela e ela nunca soube.
Qualquer semelhança com tudo o que toda garota é ensinada desde a infância é mera coincidência. Ou não.

Bela melodia, cheia de variações, solo de castanhola, e um convite:
“Se tu quiseres saber quem eu sou, vem! Me dá tua mão
Vem viver, vem lutar lado a lado
Me protege e terás proteção, minha mão, meu irmão.”

12. Final
Um cavalgar. Seria a marca da passagem de um cavaleiro, indicando o final da estrada, ou o dessa música de 45 min, o álbum “Simples de Coração”?

Não. Uma homenagem ao "estúpido" vocalista, segundo ele próprio, ou “chucro/rústico”, conforme os companheiros da banda. :)


Até "Humberto Gessinger Trio"
Tchau!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Bad Religion 9 – Recipe For Hate (1993)


Nota: 9,5
De volta após quase dois meses sem um post, eis que chegamos no disco divisor de águas da carreira do Bad Religion, aquele que fez a banda finalmente romper a barreira do Underground e estourar (nas suas devidas proporções) no Mainstream: com vocês, o magnífico “Recipe For Hate”!

E, como já virou praticamente um clichê, sempre que uma banda atinge o topo, o ápice comercial, é chegada a hora dos problemas internos começarem! E, assim como aconteceu com nomes como Raimundos, Sepultura, Iron Maiden, Metallica e (quase) qualquer outra banda que tenha chegado “lá”, os problemas do Bad Religion começaram assim que Recipe For Hate(ou “receita para odiar”, numa tradução livre), seu 7º disco de estúdio, foi lançado, em 4 de junho de 1993, pela Epitaph Records, gravadora independente de propriedade do guitarrista e compositor da banda, Brett Gurewitz (ou Mr. Brett).

Mas vamos voltar no tempo, para o comecinho de 93, um pouco antes dessa “bomba explodir”, para entender o que se sucedeu...

Letras no encarte da versão brasileira (clique para ampliar)
Depois de terem dado uma “enxugada” na fórmula musical de “Punk Rock com melodias” e mudar todo o processo de gravação em “Generator”, o disco anterior que saiu em 1992, Mr. Brett e Greg Graffin (vocalista e chapa que divide a composição no BR com Brett) resolveram não fazer nenhum plano para o próximo disco. “Acho que saiu um disco mais acessível, mas não dá pra dizer que foi premeditado”, se defendeu o guitarrista, em entrevistas na época. “Greg e eu realmente não conversamos nada sobre pra onde iríamos antes de compor qualquer coisa.

Brett (à dir.) mixando o disco com Paul Du Gre
A verdade é que, aliado a uma produção mais limpa, nítida e cristalina, que trouxe um som de bateria bem mais evidente (e com a caixa dando aquele famoso timbre de lata de Nescau), feita em pouco mais de 3 semanas, ao custo de 50 mil dólares, no estúdio de Brett, o Westbeach Recorders, na California, “Recipe For Hate” acabou trazendo naturalmente músicas com um acento ainda mais POP, endossadas ainda pelas primeiras experimentações do Bad Religion com elementos do Rock Alternativo (que estava em altíssima evidência na época, com a cena Grunge de Seattle - Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden etc.), Folk (uma das paixões de Greg Graffin) e, até mesmo, música Country.

Com o 'parceiro' Eddie Vedder, ao vivo
Como se não bastasse, há ainda o fator “participações especiais” a ser somado na fórmula do disco, já que “RFH” trouxe seis músicos de fora pra tocar, sendo os nomes mais famosos os de Eddie Vedder, do hypado (na época) Pearl Jam, que emprestou sua chorosa voz em “American Jesus” e “Watch It Die”, e Johnette Napolitano, do Concrete Blonde, que fez a já triste “Struck A Nerve” parecer um “limbo-com-ainda-menos-esperança” com seus berros desesperadores na ponte da música. Ambos eram amigos da banda e suas participações foram 100% na base da amizade. Já os demais convidados, “não-famosos”, apenas tiveram solos de guitarra e slide guitar espalhados pelo disco...

O resultado desse “descompromissado mergulho na experimentação com convidados ilustres” foi que, pela primeira vez, o Bad Religion figurou nas tão faladas paradas da Billboard, com “Recipe For Hate” ficando 10 semanas na chart “Heatseekers”, onde atingiu o número 14! E se no rádio tudo ia bem, na TV o negócio foi ainda melhor, com os novíssimos clipes de “Struck a Nerve” e “American Jesus”, o primeiro hit da banda, passando sem parar, e em alta rotatividade, na MTV americana. Em termos de vendas, “Recipe For Hate” também fez o BR bater todos os seus recordes, sendo que em setembro de 93, cerca de 3 meses depois do lançamento, o disco já havia vendido mais de 180 mil cópias só nos EUA, superando todos os lançamentos anteriores.

E foi aí que começaram os problemas...

BR em 93, ainda com Brett (de óculos)
E o que parecia improvável acabou acontecendo da forma mais traumática possível: o Bad Religion resolveu sair de sua própria gravadora, a Epitaph, depois de 13 anos, e o impacto da ação gerou um seriíssimo racha interno, com 4 membros de um lado CONTRA 1 único remanescente do outro, apoiado nas muletas de ter o comando da gravadora da banda. “O objetivo do Brett era mostrar o quanto o Bad Religion dependia da Epitaph. O nosso objetivo era mostrar o quanto o Bad Religion amparava a Epitaph”, disse Greg Graffin, sem dó, em uma entrevista de 1996. “Tudo ficou bem mais difícil quando certas pessoas começam acreditar que elas são a razão de tudo de bom que aconteceu”, alfinetou o baixista Jay Bentley em entrevista de 1997, referindo-se a Brett, de quem era braço direito no trabalho, nos dias mais “independentes” da gravadora Epitaph até o rompimento.

Com as vendas de “RFH” aumentando dia após dia, a Atlantic Records, uma gravadora “major” (ou seja, uma empresa multinacional), enxergou o potencial do BR e fez aquela “proposta indecente” para ter a banda em seu catálogo. Brett, que era dono da Epitaph e, consequentemente, de todo o catálogo da SUA banda, se doeu todo e não gostou nada da ideia. Mas, como ele dividia a liderança da banda com Greg Graffin (que já estava “afinzão” de tentar algo diferente, com “cara de mainstream” e não mais de “independente”), além dos outros 3 membros da banda (Jay Bentrey mais o guitarrista Greg Hetson e o batera Bobby Schayer) votando a favor da saída, o Bad Religion acabou assinando o contrato com a Atlantic e, rapidamente, ainda em 93, “Recipe For Hate” foi relançado pela major, fazendo Brett, que na época havia voltado com tudo ao vício do crack (!!!), se morder de raiva de seus parceiros, porém, ainda sem tomar atitudes mais drásticas.

Contracapa da versão nacional da Paradoxx
O contrato com a gravadora major previa, além da inclusão do disco recém-lançado em seu catálogo, mais outros 6 discos (eles ainda queriam os direitos de “Generator”, mas Brett não deixou), e oferecia, entre outras coisas, “liberdade artística total” e aquela estrutura que “só uma banda em gravadora major pode usufruir”, além de uma distribuição mundial de seus discos. E foi assim que os fãs brasileiros puderam adquirir o 1º lançamento nacional do Bad Religion por aqui, com “Recipe For Hate” sendo distribuído em nosso território pela Paradoxx/Sony Music ainda em 1993! Antes era só na base do importado...

Olhando para o disco, começando pela capa, tem-se a bela arte de Fred Hidalgo (que também foi o responsável pela capa de “Smash”, do Offspring) com os dois cachorros raivosos, vestindo seus ternos amassados depois de um dia sufocante de trabalho, com um fundo de vermelho-calor mais sufocante ainda! Clássica e bem atraente para embalar as 14 faixas em 37 minutos da “receita para o odiar”!

Capa da versão em K7
Mesmo com toda a tensão interna causada pela saída da Epitaph, contrariando todas as expectativas, o Bad Religion estava em seu melhor momento musical, tendo atingindo seu ápice criativo com “Recipe For Hate”! Esse “momento mágico”, que talvez jamais seja alcançado, durou ainda mais 2 discos, gerando uma 2ª trinca de discos clássicos na carreira da banda! Os fãs puristas sempre vão preferir os 3 discos pós-retorno nos Anos 80: “Suffer” (1988), “No Control” (1989) e “Against The Grain” (1990). Mas nenhum será capaz de diminuir os discos que vieram nessa segunda leva: “Recipe For Hate” (1993), “Stranger Than Fiction” (1994) e “The Gray Race” (1996). Era o estilo clássico de composição do BR, aperfeiçoado e levado às últimas consequências, tanto que a partir de 1996, a banda passou apenas a se copiar (não que isso seja uma coisa ruim. Longe disso, aliás... rs).

Arte do single de "American Jesus"
Voltando ao “RFH”, como já é tradição abrir seus discos com a mais cacetada, o Bad Religion já começa o play com a faixa-título quebrando tudo, com seu riff cortante e simples e a letra de Graffin, que manda aquele recado pra quem ainda acredita que a América foi “descoberta” por Cristovão Colombo! Ainda é uma das mais tocadas nos shows até hoje! Na sequência temos a cheia de influências countryKerosene”, que lembra “Atomic Garden”, do disco anterior, e tem tantos solos, que mal se escuta a base! Para tantos solos, participaram como convidados os guitarristas Jon Wahl e Chris Bagarozzi.

E então chega a faixa 3 e um inexplicável groove cheio de energia e incrivelmente simples (eles tocam apenas 4 acordes repetidamente a maior parte do som...) de puro Punk Rock te pega pelo estômago e te segura pra nunca mais soltar! Foi assim comigo quando ouvi pela primeira vez “American Jesus” hit máster do disco e, quiçá do Bad Religion!

O “Jesus Americano” foi a quarta música escrita por Graffin e Brett em parceria na banda, sendo que o cantor apenas contribuiu com as letras dos versos, enquanto o guitarrista fez todo o resto. A letra ironizava o sentimento que George Bush (o pai) tentou passar à nação americana, quando disse que eles ganhariam a guerra do Golfo, porque “Deus estava do lado deles”. É como ironizar aquele chavão nosso do “Deus é Brasileiro”! O clipe, produzido e dirigido pelo amigo da banda Gore Verbinski, trazia mais amigos e alguns funcionários da Epitaph perambulando vendados e carregando cruzes por Los Angeles, enquanto a banda performava em um deserto não tão próximo a cidade Red Rock Canyon, na Califórnia.

Veja abaixo o clipe de American Jesus:

Na sequência, vem “Portrait of Authority, mais uma interessante música Punk cadenciada de Greg Graffin (como “Faith Alone”), mas, dessa vez, com letra atacando o autoritarismo: “Há busto de mármore me encarando/E ninguém se atreveria a derrubar/E isso determina o que é certo e errado.” Em seguida, “Man With a Missionmostra todo o experimentalismo de Mr. Brett ao misturar Punk com o Country e Folk, com direito a vocal “dupla sertaneja” e até mesmo uma slide guitar, tocada pelo convidado Greg Leisz. A letra é uma clássica do BR, criticando quem segue falsos líderes às cegas por aí.

Cartaz promocional de RFH
Ainda na sessão “experimentalismo”, o play traz a interessante “All Good Soldiers”, com Mr. Brett arriscando tudo ao compor uma levada groovada, diferente de tudo já feito antes pela banda, totalmente inspirada no Rock Alternativo (leia-se: Grunge) e que poderia estar facilmente num disco do Mudhoney! A letra, como o título entrega, ironiza os soldados bonzinhos e fieis do exército. E, como se não bastasse, há ainda um solo de guitarra feito pelo engenheiro de som assistente do estúdio de Brett, Joe Pecerillo, como convidado (mais um!).

Watch it Die”, de Graffin, vem na sequência, mostrando toda a paixão do cantor pelo Folk de influência irlandesa, bem comum e enraizado na cultura norte-americana. A levada feliz, e que poderia ser acompanhada muito bem por um banjo (!), contrasta de maneira inteligente com a pessimista "letra apocalíptica fim do mundo”. Para ajudar, há ainda a participação do amigão Eddie Vedder, do Pearl Jam, cantando a segunda estrofe da letra!

E já que Graffin se mostrou pessimista, seu lado observador do cotidiano triste do mundo nos dias de hoje acabou aflorando de vez, em forma de uma brilhante poesia, cheia de sentimento e revolta, envolta por um Punk Rock certamente composto no piano, na maravilhosa “Struck a Nerve(tradução livre: “deu no saco”): “Eu tento fechar meus olhos, mas não consigo ignorar o estímulo. Se há um propósito pra vivermos aqui assim, ele ainda permanece um segredo pra mim, então não me peça pra justificar minha vida.” O clipe, dirigido por Darren Lavette, traz cores tristes e blip-verts sem sentido.

Veja abaixo o clipe de Struck a Nerve:

Na faixa 9 está gravada “My Poor Friend Me”, uma das primeiras demos apresentadas para o disco (leia mais no fim do texto). Meio com cara de filler, a música lembra algum Hardcore dos primeiros discos da banda, mas, por estar com a produção mais limpa, não soou tão agressiva. O trecho de piano que há na versão demo é maravilhoso, mas inexplicavelmente foi limado da versão que saiu no disco (!!!). E já que o assunto é Hardcore, o Bad Religion quis mostrar que ainda dominava a área com “Lookin’in”, que vem seguida. O som é todo feito em cima de um esperto riff, a todo vapor, que a banda inclusive chegou usar como intro em algumas apresentações, e tem uma letra do “doutor em Geologia” Graffin sobre como a evolução humana é a também sua própria ruína.

Contracapa de single pirata de "American Jesus"
Já “Don't Pray on Me, de Brett, música “irmã” da “Man With A Mission”, é um country puro, cantando em “dupla sertaneja” e cheia de slide-guitar. Se aproximando do fim do disco, “Modern Day Catastrophists”, traz o BR fazendo um Punk Rock direto e reto, com acordes simples e cheios e levada super empolgante. A letra “dá razão” aos “catastrofistas modernos” que espalham suas teorias do fim do mundo.

E fechando as cortinas, temos aquela “lado B clássica”. “Skyscraper, a alegoria de Mr. Brett sobre a história da Torre de Babel, onde Deus, mimado e com medo de perder o poder, criou as diferentes línguas para o povo não se entender mais e não poder construir a torre que alcançaria os céus... A sequência de acordes é bem comum na música pop, soando como se os Beatles tentassem tocar um Hardcore rápido! O coro de “Build me up(tradução: “me construa”) no crescendo final é épico!

E se o disco começou direto no som, sem nenhuma intro, eles resolveram fazer uma “vinheta de encerramento” com a faixa “Stealth”, assinada por Jay, Brett e Bobby. Segundo o guitarrista, não é pra ter “nenhum significado”, o que me leva a crer que a faixa foi claramente inserida no CD para gerar algum $ de direitos autorais pro Jay e pro Bobby. Mas e o Greg Hetson? Por que não ganhou crédito$?

Cartaz de show de 93, com o Green Day
Na tour de “Recipe For Hate”, o Bad Religion teve o Green Day abrindo alguns shows, eles tiveram a oportunidade de ouvir o disco “Dookie” antes do lançamento. “Vejo vocês no topo, porque vocês vão estourar. Ninguém está fazendo um som assim no momento”, previu acertadamente Jay Bentley ao trio de São Francisco sobre seu futuro clássico, que estouraria no ano seguinte.

Recipe For Hate” fez o Bad Religion atingir o status de banda mainstream, tamanho alcance e popularidade que eles conheceram depois de seu lançamento. Musicalmente, com o disco, eles dominaram como ninguém o caminho do “Punk Rock Melódico” que eles mesmos traçaram como pioneiros anos antes. A vibe de compor clássicos que Greg Graffin e Mr. Brett estavam vivendo no momento (que durou de 93 a 96) superou todas as crises internas que o BR começou a sofrer desde que tinha “chegado lá”! Foi como se a “maldição do sucesso” não tivesse atingindo o setor criativo da banda, como o disco seguinte, o magistral “Stranger Than Fiction”, de 1994, o “ano que o Punk estourou”, veio a provar. Veremos isso no próximo post! Até lá!

Escute “Recipe For Hate” na íntegra:

BONUS: 3 demos de “Recipe For Hate” estão disponíveis no YouTube, e duas delas são de músicas que não entraram no álbum. Confira todas abaixo clicando sobre o título:

- Hole In The Ship (inédita)
- Wasting Oxygen (inédita)